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sábado, 29 de março de 2014

Certezas, Sonhos e Ilusões





Um milhão de anos atrás, mais ou menos (realmente não faz muita diferença). Estepe africana, fim de tarde. Um parente distante meu - e provavelmente seu também - vagava em busca de alimento. Com o cair da tarde, cansado de correr atrás de zebras e fugir de leões, sentou-se à beira de um rio. A barriga,  vazia há alguns dias, aumentava o desconforto causado pelos musculos doloridos. Nosso proto-tio-avô, desanimado, deitou-se com a cabeça apoiada em uma pedra, tentou ignorar o frio e sucumbiu ao cansaço.

"Assim não dá mais", teria pensado ele se conseguisse pensar. "Preciso de alguém mais jovem para me ajudar na caça. E preciso também de alguém para me aquecer nessas noites frias". Nesse exato momento o Criador, que naquela época ainda tinha tempo de atender pessoalmente e em curtíssimo prazo suas criaturas, resolveu intervir.

- Precisamos deslocar rapidamente três fêmeas para aquele riacho - falou ele a um assistente enquanto apontava para baixo.

- Mas porque três e não uma só? - perguntou um anjo novato e sem noção, que não satifeito ainda emendou: "Se mandarmos uma só ele não terá o trabalho de escolher".

- "A escolha não é um trabalho é sim uma privilégio, uma dádiva minha para essas criaturas e seus descendentes" - respondeu manso o Senhor, que naquele tempo ainda tinha paciência.

- Entendo. Bem, qual a descrição das fêmeas?

- A primeira deve ter quadris largos, seios medianos e olhar doce - promessas de uma boa esposa e boa mãe; a segunda quadris medianos, seios fartos e olhar penetrante - para que ele possa sonhar com uma companheira em grandes aventuras de caça; e a terceira quadris largos, seios fartos e olhar sedutor - caso ele prefira uma companheira boa demais para ser verdade - mesmo que isso implique em mais trabalho para administrá-la.

- Ok. E quanto à cor da pele, cor dos cabelos, altura...enfim...tudo aquilo que está nesses seus rabiscos? - perguntou o ansioso anjo.

- Ainda não estamos na era de aplicar  esse nível de customização - respondeu o Criador já pensando em um programa de intercâmbio com anjos de outras galáxias.

- Certo. Farei com que elas estejam lá ao amanhecer.

E foi assim que, ao acordar, nosso intrépido e esfomeado caçador deparou-se não com uma mas com três fêmeas de sua espécie, nuas, banhando-se em uma curva do riacho. Com o coração acelerado e o pequeno cérebro esforçando-se para trabalhar em sincronia com o corpo, começou a elaborar um plano e ao mesmo tempo mover-se em direção a elas. Precisava agir rápido antes que fossem embora.

Seu primeiro ímpeto foi levar as três, já que todas lhe pareceram muito interessantes. Mas, sabia que por mais forte que fosse não poderia arrastá-las para a caverna ao mesmo tempo e assim acabaria perdendo duas, ou talvez até todas as três, no caminho. Precisava decidir-se por uma delas.

Chegou então sorrateiramente, agachado pelos arbustos. Aproximou-se e correu o olhar por cada uma. Só que quanto mais olhava, mais confuso ficava. A mais próxima lhe passava a certeza de ser uma boa mãe e boa esposa. Outra mais distante lhe parecia aventureira - uma boa companheira nas caçadas e longas jornadas com as quais ele tanho sonhava. Mas era a terceira, nesse momento de costas para ele, que mais o tentava. Não conseguia tirar os olhos da jovem.  E embora ela não lhe parecesse nem disposta a ter muitos filhos nem propensa a longas jornadas de caça, algo lhe dizia que as noites (e quem sabe até dias) de calor  estavam garantidas. "Com ela ao meu lado nem precisarei fazer força para caçar - basta mostrá-la aos leões que ficarão hipnotizados e se deixarão abater facilmente".

Por fim, ergueu-se. Havia tomado sua decisão. Encaminhou-se em direção às jovens e colocou-se diante daquela que levou sua imaginação além das promessas e além dos sonhos. Limpando a garganta, lhe fez ao mesmo tempo o melhor elogio e o mais longo discurso que seu vocabulário permitia:

- GRRWRSFS!!!

Antes que ouvesse resposta ("tanto faz o que ela disser, vou levá-la comigo do mesmo jeito", pensou ele) colocou-a sobre os ombros e seguiu assobiando, feliz da vida, de volta para sua caverna.

Da curva do riacho, as duas outras jovens, com lágrimas nos olhos, olhavam para o recém-formado casal que partia estepe afora. Não pela perda da amiga, que fique bem claro, mas por não terem sido elas as escolhidas. Enquanto isso, de sua cadeira de balanço celestial o Criador contemplava a mesma cena e dizia para elas: "não se preocupem minhas filhas; haverão em seu caminho outros caçadores. E também, com o tempo, botox, cirurgia plástica, regimes milagrosos...."

"E silicone!", interrompeu o anjo entusiasmado.

- "E silicone", concordou o Todo Poderoso já meio arrependido de ter expandido seu negócio a ponto de precisar de assistentes.

- A escolha dele foi a melhor? - perguntou o anjo.

- Foi a melhor para ele, e isso é o que importa. Talvez, com o passar dos milênios, eu conceda a eles uma outra dádiva chamada "razão", para que as escolhas não sejam tão viscerais.


Um milhão de anos depois, mais ou menos (ali pelo começo do século XXI). Uma selva de pedra qualquer, fim de tarde. Um atleta amador indistinto (pode ser você, posso ser eu) cansado de caçar resultados esportivos com sua bicicleta básica decide que precisa de algo melhor. Primeiro pensou em pedir ao criador que resolvesse seu problema, mas diante da fila de espera (sua senha era número 5.435.239.116), resolveu apelar para uma loja de artigos esportivos. Entrou na que lhe pareceu mais indicada e passou a contemplar suas opções. A fichas técnicas atrapalhajudavam:

- "Carbono Ultra Nano para você atingir seu RP".

- "Quadro Aero Mold para você ganhar sempre".

- "Tão Rápida que é melhor você usar dois chips por segurança".


Enquanto isso, de algum lugar entre as nuvens e as estrelas, dois anjos conversavam:

- Não seria mais fácil se ele tivesse apenas uma para escolher? - disse o mais jovem, recém graduado.

- A escolha consicente é uma dádiva que nosso Patrão concedeu a essa espécie.

- E com base em que o homem faz suas escolhas?

- No início era puramente instintivo. Mas com o passar do tempo surgiu a razão e as escolhas passaram a ser feitas mais com base nas certezas do que em sonhos e ilusões.

- Entendi.

Ao mesmo tempo saímos da loja ,você ou eu, empurrando uma bicicleta nova. Dentro da mesma loja, no balcão, uma ficha técnica anuncia em letras garrafais "6 minutos mais rápida em 40 quilômetros". Em letras miúdas ao fim da página "*dados de ciclista profissional a 45km/h".

Por cima das letras miúdas e graúdas, um carimbo de "PAGO".

O Criador, mais uma vez, sorriu.

O dono da loja sorriu.

O dono da bike sorriu.

E o anjo novato concluiu que ou os mais velhos não sabiam de nada ou ele ainda tinha muito que aprender a respeito da raça humana.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Hidratação Em Provas de 70.3 e Ironman - Entre o Mínimo e o Máximo








Mais por opção que ausência de opinião tenho tentado manter uma distância de tópicos polêmicos em geral, inclusive os relacionados ao triatlon. E como "tópicos polêmicos relacionados ao triatlon" é quase um pleonasmo - impressionante a capacidade que existe nesse universo em transformar coisas simples em outras complexas - pouco tenho falado sobre o assunto.  Um desses tópicos, por exemplo, diz respeito à questão da hidratação embarcada em provas de média e longa distância. Quanta água levar? Onde levar essa água? Dá pra confiar na organização e usar os postos de abastecimento? E o que fazer com alimentos líquidos (malto, R4, etc.)?

Não fosse por uma mensagem recebida ontem eu continuaria tangenciando essa questão da mesma maneira que outras polêmicas. Mas como a pessoa que a escreveu merece uma resposta decente e elaborada, e como provavelmente a dúvida dele é a mesma de tantos outros, adeus zona de conforto. Vou jogar a cautela para o ar, meus 100ml. de gasolina na fogueira das discussões intermináveis e depois sair correndo. 

O amigo em questão é o Luiz Renato Topan - dono de um currículo esportivo que fala por si e eterno curioso em relação ao que pode ser feito para melhorar seu desempenho (principalmente porque a lição de casa ele faz direitinho).

Eis a pergunta dele:

Em termos de aerodinamica de sistemas de hidratação:

1- li que o melhor hoje seria o "torpedo" no clip, pois gera menos arrasto que o aerodrink tradicional. Verdade ou mito? 


2- Quanto as garrafinhas no quadro, qual a melhor conformação ? As redondas nos tubes de sempre ? As aero ( tipo barbatana ) no quadro ? Estas no sitetube ou no da frente? 


3- E garrafinhas atrás do banco? Acho uma mer.... aquele monte de tralha. 


4- Já vi os cages single e duplo de trás do selim, mas alguns usam um cage meio que por baixo do selim ( o Lietho usa a aero/barbatana no quadro e uma por baixo do selim - foto anexa )



Com base nas perguntas acredito que o que ele quer saber é onde colocar suas garrafas, quantas levar e qual o melhor formato para elas. 

Antes de responder essas perguntas foi necessário fazer a ele uma outra, que entendo como a Grande Pergunta: Qual o mínimo de líquido embarcado que você sente-se à vontade para levar? Porque se por um lado uma das premissas das provas de triatlon é a auto-suficiência (nada de ajuda externa), por outro essas mesmas provas oferecem postos de hidratação ao longo do trajeto e esses postos deveriam, ou ao menos poderiam, entrar na conta. 

Abracei esse conceito de embarcar o mínimo possível de líquido com base nos seguintes pilares:

- Curiosidade - li alguma coisa sobre o assunto e acredito que funciona;

- Experiência própria - já quebrei por ser minimalista demais;

- Experiência alheia - sempre que desmontamos bikes de clientes depois das 
provas há líquido de sobra nas caramanholas;

- Senso estético: cada vez que olho para uma bike de TT/TRI saturada de garrafas e pendurricalhos imagino um cavalo de corrida transformado em jegue de procissão;

-Bom senso: se for para ter um jegue de procissão não é necessário investir em um cavalo de corridas;



Aero uma vez um quadro aero........

Como procurei deixar bem claro não ha conhecimento profissional envolvido nessa escolha. Não sou nutricionista nem especialista em treinamento esportivo e tampouco pretendo interferir no trabalho deles. Se alguém acatar o que está escrito aqui portanto, que o faça com as devidas doses de cautela e senso crítico.

Para resolver a equação "quanto de líquido embarcado levar", cada atleta deveria saber:

1) qual o seu consumo de água e alimentos líquidos / hora. Água é fonte de hidratação; já Maltodextrina, R4, etc., são fontes de nutrição; matar a sede (ou hidratar-se) bebendo maltodextrina ou R4 é como matar a sede bebendo leite. Portanto, é preciso separar "água" de "alimentos líquidos" na conta, principalmente porque o consumo de alimentos líquidos gera demanda de água. Além disso, a natação deve ser computada - ou o atlteta bebe o suficiente antes de entrar na água, ou depois (ou os dois). A conta na bike deve começar do zero e não do "menos uma hora";  

2) em quanto tempo irá concluir a prova (cálculo pessimista). Sabendo o consumo de líquidos e o tempo previsto de prova, é possível prever a quantidade embarcada necessária (máxima);

3) qual a quantidade e posicionamento dos postos de hidratação ao longo do percurso. Aí torna-se 
possível prever a quantidade mínima de líqudos embarcados;

4) quais as condições climáticas da prova. O Ironman Brasil ocorre, historicamente, em um tipo de condição (sol, calor moderado, vento moderado); Kona tem outro (muito sol, muito calor, muito muito vento), e dificilmente alguém que adotar a mesma solução para os dois cenários acabaria bem sucedido.

Uma vez determinados os máximos e mínimos para cada tipo de prova, entramos no próximo túnel (leva a algum lugar que não conseguimos ver e temos que seguir no escuro): qual o tipo de garrafa levar e onde colocá-la. 

Houve um tempo - antes do triatlon surgir em cena - em que todas as garrafas (ou caramanholas) eram simplesmente garrafas redondinhas com um bico em cima. Elas eram presas à bike primeiramente no guidão e em seguida no quadro, por meio de dois parafusos e um suporte. Bons tempos. Nada de 
equações - bastava beber e pedalar. 



.

Com a introdução e desenvolvimento das TT/Tri bikes, garrafas redondas passaram a ser tratadas como anomalia e não acessório. Afinal, quadro aero pede garrafas aero. A consequência disso é que hoje temos uma grande variedade de formatos e posições para as garrafas, sendo que cada combinação de posição e formato possui pelo menos um teste em túnel de vento argumentando em seu favor.  Aí o que parecia ser uma luz no fim do túnel de vento - a solução perfeita para levar sua hidratação - acaba se revelando a luz do trem vindo em sentido contrário. Um trenzinho cheio de vagões, cada vagão com uma opção diferente e cada opção reclamando para si o título de "Ideal". E eis que "hidratar-se" passou a ser, antes e ao invés de uma simples necessidade, um grande problema. 

Tomando como base a literatura atual para começar a resolver esse enigma, os sistemas mais "aero" 
são aqueles posicionados na horizontal à frente do atleta (apoiados no par de clips); 


Modelo com suporte e porta-caramanholas 



Modelo completo já com garrafa suporte para computador





seguidos pelas garrafas aero colocadas entre o top e o downtube



O frame com a garrafa é mais aero do que sem ela.....





seguidos pelo suporte individual atrás do selim


Suporte traseiro único exclusivo para New P2, P3 e P5. Essa é a solução dromedário. 


seguido pelos suportes duplos atrás do selim



Suporte duplo. Essa é a solução camelo. 


Essa literatura pode ser contestada? Pode, e talvez até deva. Mas a questão fundamental é que qualquer literatura pode ser contestada, e a menos que alguma seja aceita e colocada em prática continuaremos eternamente hipnotizados pela fogueira da discussão. 

Com base nisso, a minha sugestão hoje para hidratação em uma prova de 70.3 dentro do contexto "quanto menos melhor" seria:

- a água em uma garrafa horizontal colocada no clip  e a "mistura" (algo que não seria possível pegar em postos de abastecimento) em uma garrafa aero no quadro; e colocaria, por precaução, um terceiro suporte vazio atrás do selim para eventualmente levar garrafa(s) cedidas pela organização; ao longo da prova, procuraria consumir  água e isotônicos da organização e guardaria os meus embarcados como "reserva técnica". Esse aliás é um conceito meio estranho - usar o que temos na bike como reserva e consumir o que a organização forneçe - mas que quando funciona, funciona muito bem.

Para um Ironman:

- idem acima, além de mais uma garrafa com minha mistura no posto de special needs se fosse necessário;


Essa abordagem de transportar o mínimo possível de líquidos é viável desde que:

1) o atleta tenha treinado e se programado para competir dessa maneira;

2) haja água e isotônicos suficientes nos postos de hidratação (previsível em provas de Ironman, pouco confiável em outras provas já conhecidas do calendário nacional);

Por outro lado, como em todos os outros casos em que se trata de supostas penalidades aerodinâmicas causadas por qualquer coisa que torne a bike ou o atleta "menos aero", inclusive sistemas de hidratação, a não-aceitação dessas penalidades por parte do amador mediano  (vou tirar tudo da bike para que ela fique super aero)  pode trazer resultados piores do que a penalidade aerodinâmica em si. Ex: o atleta ganha 46 segundos de vantagem aerodinâmica porque levou somente uma garrafa aero no clip e perde 46 minutos na corrida por paradas não programadas em função de cãibras e desidratação. 

Para atletas de alto rendimento (caso do Topan) a matemática é um pouco menos tolerante, e cada ajuste pode fazer a diferença entre subir no podium ou ficar de fora aplaudindo junto com a galera. Para esses, a teoria minimalista pode contribuir - desde que o atleta esteja disposto a desacelerar nos postos para reabastecimento.... 

Sendo assim, me parece que entre a minha proposta minimalista e a prática maximalista da maioria dos atletas existe também um caminho do meio - levar um pouco mais que o mínimo e um tanto menos que o máximo; confiar um pouco mais na organização e acreditar que é possível obter o máximo (rendimento) a partir do mínimo (de preocupação, de tralhas, de hipnotismo pela fogueira de discussões).   

domingo, 16 de março de 2014

Soneto da Profunda Embriaguez


No começo era a Cerveja.
Um copo no almoço, um copo à noitinha;
Fosse Pilsen, Lager ou Bock, pouco lhe importava;
Bebia até cair mas nunca se embriagava;

Em seguida veio o Vinho.
Uma tacinha no almoço, outra à noitinha;
Fosse seco, fosse tinho, de taça ou no garrafão,
Bebia até cair mais sempre se erguia do chão;

Logo após, a Cachaça.
Dois dedinhos de manhã, mais dois à noitinha,
Acordava sempre caído, derrotado pela branquinha;

Mas sua verdadeira perdição, vejam só, foi o Isotônico.
Não tem dia, não tem hora e não tem vez;
Acorda cada vez mais distante, afogado na própria embriaguez.


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Talvez a carapuça sirva, talvez não. Se não, ótimo. Se servir, sempre é tempo de começar a tomar àgua.

Ou Juízo, pelo menos.


quarta-feira, 12 de março de 2014

New P2, New P3, P5...Pense Bem.





Para o atleta que deseja adquirir uma Cervélo da linha P, há hoje 3 opções:  New P2,  New P3 e  P5/6. Cada uma delas identifica-se com uma faixa bem específica de mercado, e portanto cada uma carrega preços e acessórios / peças distintos. Entretanto, será que são mesmo bicicletas distintas? Será que as diferenças de preço e componentes traduzem diferenças proporcionais de desempenho? A minha opinião é que no primeiro caso "depende", e no segundo  "não".  A explicação vem a seguir.

Para começar, um pouco de flashback:



Esta é a P3 tradicional, que não é mais fabricada. 

Está é a P2 tradicional, que também não é mais fabricada. 

Tanto P2 como P3 acima são velhas conhecidas de triatletas e ciclistas contra-relogistas, e dispensam maiores comentários. Uma - a P3 - tornou-se um ícone de desempenho e a outra um marco de custo x benefício. Só que para efeitos desse artigo nenhuma das duas será considerada, haja visto que não há entre elas e suas descendentes qualquer semelhança que justifique essa consideração.  Portanto, quando mencionarmos P3 e P2  de agora em diante, trata-se de:

New P3

Cervélo New P2

Com relação a esses dois modelos, o fato de que receberam o nome de New P2 e New P3 induz o consumidor a uma associação imediata com os seus precursores - algo como "a new P3 deve ser uma P3 melhorada e o mesmo vale para a P2".  Pois para mim ao menos, não são. Nem uma nem outra são versões melhoradas criadas com base nas anteriores. Ao contrário, ambas são, essencialmente, versões simplificadas (nas peças e acessórios) da nova geração de Cervélo TT/Tri bikes, encabeçada pela P5.


 Resumidamente então:

- a Cervélo fabrica hoje praticamente um mesmo frameset para os 3 modelos - P2, P3 e P5;

- esse frameset é o conhecido originalmente como P5, sendo que na P2 o garfo é diferente daquele  usado na P3 e P5, e a traseira da P5 é ligeiramente diferente (abaixo do seat post) dos frames de P2 e P3;

- ao contrário do que o termo "New" pode sugerir, não há nada em comum entre P3 antiga e a nova, e o mesmo vale para a P2; do ponto de vista de nomenclatura, elas estão muito mais para P5/1 e P5/2 ou coisa parecida.

Para visualizar melhor:

Frameset P5



Frameset New P3


Essaa genética comum entre os três frames tem uma consequência direta e de certa maneira indesejada para o consumidor: não há quadros de P3 nem P2 para venda. Com os modelos antigos, isso era possível porque tínhamos quadros distintos e bikes de valores agregados distintos. Na época, o quadro somente custava cerca de 70% da bike. Agora, porém, se seguíssemos a mesma linha, o quadro da P3, que é o mesmo da P2, custaria mais do que a P2 completa..... (e quem for mais a fundo nessa conta vai chegar a uma outra conclusão bem interessante a respeito do custo de fabricação desses quadros!).

Para quem deseja entender qual as reais diferenças práticas entre os framesets, alguns números podem ajudar:

a) entre P5/3 (que é a P5 sem frente integrada, e que por sinal também não é mais fabricada) e P5/6:
5 Watts a 48km/h;

b) entre P5/6 e P3 com mesmo aerobar: 1 Watt a 48km/h;

Como os frames de P3 e P2 são exatamente iguais, em "b" acima a diferença entre P5/6 e P2 seria praticamente a mesma (um pentelhésimo maior em função da diferença de garfo).

A análise desse contexto, além de provocar intencionalmente a discussão sobre a validade de nomear as novas P usando "2" e "3" ao invés de alguma referência à P5, também permite ao atleta interessado em adquirir qualquer uma das três fazer uma crítica bem estruturada em cima da questão investimento x retorno. Afinal, embora os grupos sejam bem diferentes:

- P5 com Dura Ace mecânico ou DI2,
- P3 com Ultegra mecânico ou DI2; e
- P2 com 105

 o frameset em si, que é o componente realmente impactante a nível de rendimento, não traz diferenças expressivas nesse sentido para atletas mortais. Por que? Porque a geometria é exatamente igual nos três casos, e porque a menos que eu esteja enganado ninguém nunca fez um Ironman, um 70.3 ou mesmo um triatlon olíimpico a 48km/h de média (e mesmo que tivesse feito esse ganho de 5 Watts seria muito difícil de ser aferido).

É verdade que a frente integrada e os freios encobertos da P5 conferem a ela uma vantagem mais expressiva em relação a P3 e P2, mas mesmo assim há que se ponderar se "expressivo" significa algo na prática para uma média de 30 km/h, que é a média do pelotão amador mediano em uma prova normal de Ironman.

O ponto crucial ao meu ver é o seguinte: se, consideradas as versões anteriores de P2 e P3, para a massa dos atletas a primeira já era uma excelente opção, agora que os framesets são praticamente idênticos a New P2 passa a ser uma opção ainda mais interessante, haja visto que com a diferença de preço entre P2 e P3 Ultegra DI2, por exemplo, é possível equipar a P2 com um par de Zipp - e uma P2 105 com um par de 404, 606 ou 808 irá oferecer uma economia de Watts consideravelmente maior que a P3 com câmbio eletrônico, ou mesmo que uma P5/3.

Onde ficam então as P5 e P3? Condenadas à extinção? Não. Sempre haverá lugar para equipamentos diferenciados - no visual, nos componentes, ou mesmo no nome. P3 e P5 são aquisições nas quais o conceito de custo x benefíco pesa menos que o fator emocinal - o prazer de ter algo diferenciado, mesmo que essa diferença não redunde diretamente em performance superior. Não fosse assim os alemães da antiga alemanha oriental ainda estariam dirigindo seus Trabant mesmo tendo condições de comprar uma BMW.

O objetivo mais importante dessa análise no entanto não é gerar polêmica sobre as estratégias de marketing da Cervélo ou fazer a apologia da P2, mas sim permitir a atualização  dos conceitos de diferenças entre as bikes da linha P "antiga" para os modelos atuais, permitindo uma escolha baseada naquele que ofereça a melhor combinação entre peças, preço e prazer na compra.

Porque o quadro senhoras e senhores, independente do nome, esse é basicamente o mesmo.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Diálogos (Su)Reais



A viagem para a prova do Ironman 70.3 em Brasíla está se revelando mesmo uma caixinha de surpresas. Ano passado  foi o memorável Jantar Mais Caro do Mundo . Esse ano, conforme revela o diálogo abaixo, travado entre eu e a recepcionaista de um hotel onde pretendemos (predentíamos?) fazer reservas, antes mesmo de chegar lá a diversão já começou.

- Hotel ______, bom dia;
- Bom dia;
- Pois não?
- Estou ligando a respeito de uma reserva. Falei com vocês durante a semana e fui orientado a enviar um email solicitando essa reserva. Enviei o email no começo da semana e não obtive resposta.
- Pois não.
- Pois não o que?
- Qual o seu email?
- Macsarrobakonabaiquespontocompontobeérre.

Falei tudo de um fôlego só, sem piedade mesmo.

- O senhor pode soletrar?
- Pois não.

Soletrei tudo, dessa vez sem alfabeto fonético para evitar o que aconteceu aqui. 

- Por favor aguarde um minuto que tentarei localizar seu email.....
- Pois não.
- Fica ali, no primeiro andar.....
- Hein?
- Estava falando com um hóspede, não é sobre o seu email não.
- Valha-me Deus.
- Hein?
- Estava falando com meu patrão, nada a ver com o email.
- Bem....não consigo localizar nenhum email com esse endereço. Em nome de quem foi feita a reserva?
- A reserva não foi feita porque a pessoa que me atendeu disse que não era possível fazer reserva por telefone. Eu teria que mandar um email.
- E o senho rmandou?

A temperatura do meu sange começou a subir.

- Mandei, e pelo jeito vocês não receberam.
- Quando foi enviado o email?
- Na terça feira.
- Por favor aguarde um minuto....
- ......................
- Realmente, não consigo localizar  nenhum email em seu nome. Na verdade, temos recebido várias reclamações....pelo jeito estamos com problemas no nosso email.

Minha têmpora começou a latejar.

- Vamos fazer o seguinte...esqueça o email....gostaria de fazer uma reserva agora.
- Não podemos fazer reserva por telefone. O senhor tem que mandar um email.

Se estivessemos cara a cara, grandes chances da segurança do hotel ser acionada imediatamente.

- Mas o email de vocês não está funcionando, certo?
- Certo.
- Então como fazemos?
- O senhor manda um email e me liga daqui a pouco para ver se chegou direitinho.
- Ok. E se o email não chegar?
- Daí eu lhe passo um outro email.
- Jura?
- Pois não.






terça-feira, 28 de janeiro de 2014

De CUSP em CUSP

O homem teve um súbito ataque de tosse. Em seguida veio o pigarro e uma necessidade visceral de cuspir. Olhou para o chão. Muco e sangue. "Isso não pode ser boa coisa", pensou. Mesmo assim, entendeu que não precisava de antibióticos ou de visita ao médico.

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Não conheço pessoalmente a USP, mas para atenuar esse pecado tenho dois trunfos: conheço pessoalmente várias pessoas que treinam lá e sou brasileiro. A soma do primeiro ao segundo certamente me permite andar com alguma segurança na corda bamba que é abordar um assunto sem conhecimento direto de causa.

Diz a mídia - e confirmam esses conhecidos meus - que a USP vem sendo alvo de ladrões de bicicleta, e que esses mesmos ladrões operam com liberdade porque a polícia é impedida de agir dentro dos campi. Dizem também - a mídia e meus amigos - que a ausência de policiamento ostensivo propicia a instalação de outras formas de criminalidade, notadamente o tráfico de drogas.

Se tudo isso for mesmo verdade, não consigo deixar de ver a USP como um cuspe do Brasil. Desses verdes, feios e com manchas de sangue. Que revelam um paciente em estado crítico e cuja pior condição é o não reconhecimento do próprio estado doentio. Todo dia ele se arruma com boas roupas, passa perfume, alguma maquiagem, olha-se no espelho, estufa o peito e diz: Olha pra isso - nunca estive melhor. Mesmo que por dentro esteja todo podre.

Para começar, na USP assim como no Brasil, não há mocinhos nem bandidos. Há facções. A facção dos que acham que mandam, a dos que fingem que obedecem e a dos que se aproveitam da falta de mando e da ausência de obediência para criar um poder paralelo. A partir daí, na USP assim como no Brasil, fica estabelecida uma condição de guerra civil - brasileiros contra brasileiros, cada facção empunhando cores  diferentes da mesma bandeira com variações do mesmo slogan - "Eu Só Quero Me Dar Bem". Isso está escrito de um lado. Do outro "E Foda-se Quem Estiver No Meu Caminho".

No caso particular da USP, a facção dos ciclistas só quer um lugar decente para treinar. O slogan em sua bandeira é "Eu Só Quero Pedalar"; a facção-dos que-vem-estabelecendo-o-poder-paralelo, por outro lado, só quer conseguir algum dinheiro fácil para comprar drogas alucinógenas - crack, cocaina, cerveja, cachaça, TV, carro novo, Ipod, metralhadoras e outras menos populares. Seu slogan: "Eu Só Quero Apavorar". E a facção dos que acham que mandam entende que mesmo diante do conflito iminente entre partes com interesses tão diversos, o único remédio imediato aplicável (digo remédio, não cura), que seria a polícia, é algo que vai contra os princípios da Academia. Seu slogan - "Eu Só Quero Que Saibam Que Aqui Quem Manda Sou Eu". Dentre os três grupos, o que recebe minha simpatia é o dos ciclistas porque é o único uniformizado, e usar uniforme em guerra civil é no mínimo um ato de coragem (embora a longo prazo acabe levando a baixas bem pesadas).

Por esses e por outros, espantar-se com a situação da USP é como olhar para o muco verde e vermelho no chão e pensar "nossa, que coisa horrível", e continuar convivendo normalmente com o homem que cuspiu como se ele e seu cuspe fossem coisas dissociáveis. A USP não é um paciente e sim uma pequena manifestação de uma doença muito maior que embora combatida por alguns é alimentada diariamente por muitos outros. Em outras palavras, a perdição do Brasil é que o nosso caos social, a nossa falta de uma chama moral e a nossa guerra civil tornaram-se um negócio lucrativo. Algumas facções ganham mais, outras ganham menos, mas todas assimilaram a (falta de) lógica desse tipo de conflito: não se trata de vencer ou perder e sim de lucrar alguma coisa. Só perdem de verdade aqueles que ficam no meio do fogo cruzado - professores que só querem ensinar, alunos que só querem aprender, ciclistas que só querem pedalar, moradores da favela que só querem viver dignamente. A eles (a mim ao menos) resta  fugir para o interior ou para o exterior - para alguma cidadela de nome engraçado no interior de Minas ou para outra de nome impronunciável na costa da Dinamarca. Porque viver no Brasil em um grande centro é tão ou mais perigoso que pedalar em acostamento de rodovias. Porque viver no Brasil hoje dói tanto que leva ao amortecimento.

Mas, para encerrar com uma nota otimista, sob um certo aspecto talvez a situação na USP não seja de todo má. Afinal, se há lideranças de comunidades com seus 100.000 integrantes que estão determinadas a sustentar uma política de não-intervenção policial em assuntos internos (mesmo com sangue no muco não precisamos de médico ou remédios....), e se há ao mesmo tempo indivíduos dispostos a fazer parte desse tipo de experimento, por que não criar outras comunidades semelhantes? Poderíamos chamá-las de CUSPEs - Centros Utópicos Sem Princípios Éticos. Ali, viveriam infernizando-se mutuamente  e portanto felizes para sempre todos aqueles cujos estandartes tem, em um dos lados, "E Fodam-Se Os Outros".

Enquanto isso, o resto do Brasil viveria em paz e cidadelas com nomes engraçados do interior de Minas, bem como outras com nomes impronunciáveis na costa da Dinamarca, continuariam sendo um mistério para a maioria de nós.

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O homem continuava cuspindo sangue. Finalmente resolveu ir ao médico.

- E então doutor, é grave?
- Receio que sim. Sua doença é terminal.
- Quanto tempo doutor?
- Seis meses.
- Graças a Deus. Vai dar tempo de ver a copa.



sábado, 18 de janeiro de 2014

O Décimo Primeiro Nome


Mario Baena. Ana Lidia Borba. Gilvan Ferreira. André Pinto. Eduardo Eusébio. Marcelo Godoy. Everson Feix. Fabio Dippe. Luiz Otávio Duarte. Rodrigo Lucianetti.

Essa pequena porém significativa lista contém nomes de dez atletas que conheço ou conheci pessoalmente e que tiveram suas trajetórias no esporte interrompidas, temporária ou permanentemente, em função de colisão com veículos.  Não cabe aqui o julgamento da responsabilidade - quem foi inocente ou culpado dos acidentes -  nem a análise das circunstâncias. Cabe apenas o  fato de que todos eles acabaram pagando um preço - alto demais em alguns casos - pela opção de praticarem seu esporte em vias públicas por onde também circulam carros, ônibus e caminhões.

Desses dez, três acabaram falecendo no próprio local do acidente. Os sete restantes, sem exceção, voltaram a pedalar após recuperar-se. E dentre esses sete, pelo menos três, que eu tenha conhecimento, passaram pela situação de atropelamento por veículo mais de uma vez. Como conclusão imediata, temos que o ciclismo, que por natureza já é um esporte perigoso, quando levado para acostamento de autopistas torna-se, sob uma certa ótica, mortal. E como conclusão secundária, temos que o ciclista, de maneira geral, vai tornando-se amortecido em relação a esse perigo (ou seja, deixa de senti-lo, embora ele esteja presente).

Cada uma dessas dez histórias me influenciou de maneira particular e contribuiu para construir uma conduta que norteou a minha própria prática do ciclismo ao longo dos últimos anos. Passei a evitar áreas urbanas, horários e dias de movimento intenso, saídas com grupos de muitos atletas. Nada de manobras radicais no acostamento, nada de truques de duble. Saia sozinho, de madrugada, por acostamentos limpos e estradas praticamente vazias. "Se me acontecer alguma coisa, será fatalidade". Esse vem sendo meu credo, meu discurso para a família, minha vacina diante do medo que às vezes chegava sorrateiro. Não tornei-me um um amortecido e sim um vacinado.

E no entanto - apesar de todas as precauções, cuidados e discursos - meu nome, invisível para os outros mas em letras garrafais e muito visível para mim, tornou-se parte dessa lista. Sem querer, tornei-me o décimo primeiro nome. A partir de uma fração de segundo na estrada que tornou-se uma semana no hospital e que hoje faz parte de uma longa sucessão de semanas de reabilitação, minhas convicções, certezas e opções a respeito da validade de encarar as rodovias para praticar um esporte que me dá imenso prazer vem sendo postas à prova. Afinal, uma coisa é olhar para uma lista com dez nomes de amigos e tirar conclusões a partir das experiências vividas por eles. Outra, completamente diferente, é olhar para o seu nome na mesma lista e viver uma experiência semelhante a deles.

No meu caso em particular, não há culpa nem remorso. Como sempre fui consciente dos riscos e procurei mitigá-los, posso olhar para trás e dizer que tratou-se, realmente, de uma fatalidade. O fato de ter sobrevivido não me qualifica como herói, assim como o de ter sido colhido por um caminhão não me torna vítima. Heróis foram e vem sendo meus familiares, que foram deslocados de suas rotinas para me ajudar a pagar o preço da minha escolha; e vítima foi o motorista do caminhão, que de uma hora para outra viu um ciclista caído na pista bem na sua frente e fez o que pode para evitar uma tragédia. Acho que no que me diz respeito,  "sobrevivente" é uma boa qualificação. Cai para o lado errado do acostamento, fui atropelado por um caminhão e sobrevivi, aparentemente sem sequelas físicas maiores, para contar uma história, aprender certas lições e recomeçar uma nova história.

A parte que se refere a "contar uma história" está encerrada. A minha já foi contada e não será, ao menos por mim, recontada. Nunca considerei ossos quebrados como troféus nem acidentes como eventos memoráveis. A última lembrança desse evento será contada pelas cicatrizes, e mais nada.

Já no que diz respeito a aprender lições relacionadas à segurança na estrada, mesmo correndo o risco de parecer arrogante, não vejo nenhuma que o acidente tenha me ensinado que eu já não soubesse anteriormente. O que aconteceu não poderia ter sido evitado por nenhuma manobra ou atitude da qual eu seja consciente. Aliás, poderia sim - poderia ter sido evitado se eu tivesse optado por ficar em casa naquela manhã, ou se praticasse outro esporte. E a partir dessa realização - a de que a única maneira de evitar o que aconteceu seria não ter estado naquele lugar fazendo o que eu fazia - saímos do campo de lições aprendidas e entramos na seara de "recomeçar uma nova história".

A decisão de voltar a pedalar nas mesmas circunstâncias que provocaram o meu e tantos outros acidentes - ou seja, de pedalar no acostamento de uma rodovia estadual ou federal - envolve doses de razão e emoção extremamente delicadas de se manipular. Não se trata simplesmente de cair do cavalo, recuperar-se e voltar a montar o mais rápido possível. Isso demanda apenas tempo e vontade, e no meu caso os dois são abundantes.

Trata-se para mim, também, de olhar para cada membro da família afetado emocionalmente pelo que houve - pai, mãe, esposa, filhos, parentes próximos - e esperar que eles estejam prontos e dispostos a passar novamente e com a mesma abnegação por outra experiência semelhante. Trata-se de esperar, além disso, que as pessoas que trabalham comigo sejam capazes de realizar o meu trabalho além de continuarem realizado o delas, mais uma vez. Acima de tudo, trata-se de acreditar que o poder divino que me concedeu o direito de nascer novamente, sadio de corpo e mente, estaria disposto a fazer o mesmo ainda outra vez. Sob essa ótica, o grande obstáculo a ser vencido não é o medo (de voltar a pedalar na estrada) mas o egoísmo (de voltar a pedalar e submeter terceiros às consequências).

Talvez, alguém argumente, esse seja um cenário pessimista demais. Talvez para cada membro da minha lista podem ser citados outros dez, em outra lista de cem nomes,  que nunca foram atropelados ou machucaram-se com gravidade, e outros tantos que nunca serão atropelados ou irão machucar-se. Talvez  o quadro que eu esteja pintando agora tenha tons de vermelho e preto em excesso, modificando uma paisagem que normalmente tem mais azuis e verdes e brancos. Talvez.

Mas o fato permanece que sendo a minha experiência pessoal e intransferível, as minhas decisões a partir dela não poderão jamais ser plenamente assimiladas ou transferidas a terceiros. Eu não posso, nem pretendo, fazer do meu caso um divisor de águas para aqueles que o acompanharam. Ele será um divisor de águas na minha vida, nada mais. Na dos outros, pode ser no máximo um nome em uma lista com outros nove.

Por outro lado, sei também que a minha opinião a respeito de tudo o que houve, uma vez tornada pública, pode servir para reflexão alheia e, a partir daí, se não impedir um acidente, pode trazer para a vítima o conforto de que ela fez tudo o que era possível para que esse mesmo acidente nunca acontecesse. Portanto, o que tenho de realmente importante a dizer para quem pedala com qualquer frequência que seja em rodovias federais ou estaduais é o seguinte:

- Você faz parte de um grupo de risco. E fazer parte desse grupo significa que acidentes semelhantes ao meu, ou aos envolvendo meus dez amigos, não são uma questão de "se" - são uma questão de "quando" e "com quem". Um dia, mais cedo ou mais tarde, novamente alguém vai cair do lado errado da pista ou ser atingido por um motorista bêbado ou demente. O atleta que tiver essa consciência - e que for transparente o suficiente com sua família para transmiti-la a eles - está, no meu entendimento, verdadeiramente preparado para a enfrentar as consequências da sua opção (ou falta de opção) de treinar no acostamento de rodovias.

O inadmissível - um autêntico crime, na falta de termo ainda pior - é levar para a estrada, ou deixar que vá para a estrada, um atleta novato sem antes dar-lhe orientações suficientes para que essa consciência se desenvolva. Seja na forma de manuais de segurança, palestras, dicas informais ou conselhos de pé de ouvido; seja pela pessoa que vende a bicicleta, pelo técnico, pelo companheiro mais experiente ou pela mídia especializada, alguma coisa precisa ser dita e repetida. Não amanhã, não semana que vem. Sempre.

Apenas por segurança - para evitar que um novato, ou mesmo alguém mais experiente porém sem orientação por perto, possa cair vítima da falta de exemplos que lhe despertem a consciência - fica aqui um exercício alternativo: pense em uma lista de dez nomes, de preferência de amigos ou conhecidos, que tenham sido envolvidos em acidentes na estrada. Se não achar dez conhecidos, pode colocar outros no lugar - profissionais, alguém cuja história um outro alguém lhe contou. E se mesmo assim não fechar a lista com dez, pode pegar emprestado da minha. Pode até - custo a acreditar nisso ainda - colocar o meu nome.

Finda a lista, imagine que o seu nome será o décimo primeiro. Você não sabe como, nem quando. Não sabe se irá viver para contar sua  história. Não sabe se será o primeiro acidente de vários.  A única coisa que você pode saber é que se diante de todo esse cenário hipotético-apocalíptico, mesmo assim o magnetismo do céu azul brilhando de manhã cedo, a camaradagem dos longos pedais, o vento no rosto e o silêncio de um vôo em alta velocidade montanha abaixo continuarem fazendo com que a paixão seja maior que o medo, então o acostamento lhe pertence.

Se a resposta for outra qualquer, procure um novo lugar para treinar ou comece a pensar em um esporte alternativo.