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Friday, July 17, 2015

Santa Cruz Stigmata (ou The Beauty & The Beast Rolled Into One)

No comments:


Sempre tentei me posicionar de maneira objetiva, senão imparcial, ao falar de algum produto - fosse ele vendido em nossa loja ou não. No início os comentários eram mais frequentes e nos últimos anos tem se limitado a bikes ou equipamentos / acessórios que realmente sejam dignos de menção (pelas minhas contas, o último review de verdade foi o da R5, em 3.8.2011....).

Isso não significa que nada de bom tenha sido lançado desde então; quer dizer apenas que não surgiu nada que realmente tenha despertado algo de especial em meus sentidos nesses anos.

Bons ventos, no entanto, voltaram a soprar e chegou a hora de escrever um pouco sobre outra bike que, assim como a R5, capturou meu interesse tanto visualmente, pelas formas atraentes, como nas estradas, pelo compromisso com a função: a Santa Cruz Stigmata.

No asfalto....
Para começo de conversa, a Stigmata, por definição, é uma Ciclocross - feita para competições em condições peculiares de terreno (lama, areia, subidas e descidas íngremes). Mesmo sabendo isso, em função de sua similaridade de geometria com a R5, apostei que poderia transformá-la com sucesso em uma "gravel bike", ou, na minha concepção, em uma bike de estrada para longos pedais em estradas não-pavimentadas, que oferecesse ao mesmo tempo um certo conforto e um certo rendimento tanto no asfalto como fora dele.

...e fora dele.  

Depois de alguns pedais iniciais e algumas modificações subsequentes (http://maxkonabikes.blogspot.com.br/2015/06/serra-catarinense-e-serra-gaucha-on-e.html), entendi que ela estava pronta para nossa viagem - 275km entre Bom Jardim da Serra e Gramado, 95% dos quais em estradas sem pavimentação.

Nas pedras secas......


...e nas molhadas.

  
Com base no desempenho dela na viagem, o que dizer?

1) foram tantas as vezes em que raios poderiam ter partido; aro entortado; pneus furados, câmbio danificado; disco de freio entortado; quadro danificado - que eu nem poderia ter reclamado se qualquer uma dessas coisas tivesse acontecido. No entanto, após a revisão feita na loja depois da viagem, percebemos que não só nada estava estragado como ela voltou praticamente no mesmo estado em que foi - intacta.  Isso prova que tanto a nível de componentes como do quadro em si, a Santa Cruz entregou na Stigmata um produto impecável;


No ombro.

2) nos trechos em que a estrada era mais lisa (ou menos pedregosa / esburacada) ela comportou-se como uma autêntica estradeira. Na verdade, excetuando-se descidas e trilhas técnicas, ela apresentou um rendimento superior aos das MTB que nos acompanhavam em todos os trechos de fora-de-estrada. Nos trechos asfaltados, era a minha R5 com pneus mais largos e steering mais comportado.


Conclusão final: a Stigmata passou a figurar, junto com a Cervélo R5, como meu equipamento favorito para sair de casa em duas rodas - com a vantagem significativa de poder me levar para lugares que a R5 jamais chegaria e, se chegasse, dos quais não voltaria intacta.

Na lama.

Recomendação: quem procura uma bicicleta de fora-de-estrada que mantenha a posição e as características das estradeiras de asfalto, e que seja capaz de ir além do chamado do dever e voltar para contar sua história - e ainda ser bonita - não precisa mais procurar.

Descansando depois da viagem. 

Wednesday, July 8, 2015

Serra Catarinense e Gaúcha Off Road -Epílogo

No comments:



Normalmente me sinto confortável para usar palavras como ferramentas de comunicação. A última etapa de nossa viagem, entre São Fransico de Paula e Gramado, no entanto, me deixou órfão de vogais e consoantes que me permitissem articular as idéias de forma clara. 

Nenhum adjetivo ou expletivo faria 100% de jus às nossas experiências nesse dia. Talvez tenha sido o fato de que eram "apenas 50 quilômetros", que segundo o nosso guia eram "relativamente fáceis". Talvez tenha sido nossa imaginação, que criou um caminho bucólico demais. Talvez tenha sido a chuva, que tornou ainda mais carregados os nossos sentidos. Enfim, qualquer que seja a explicação, o último dia foi para nós uma dessas experiências memoráveis. Não necessariamente boas ou ruins, apenas dignas de serem lembradas.  

Tudo começou com uma descida - na verdade uma picada aberta na mata, forrada de pedras e pedregulhos molhados pela chuva. Pensei francamente em desistir ali, mas como a van de apoio já tinha ido embora fui obrigado a continuar. Foram 20 minutos para descer 2.400 metros - 20 minutos com um pé no pedal e outro no ar, bunda no canote, mãos crispadas nos freios, imaginando que o próximo metro traria a pedra carrasca que acabaria ao mesmo tempo com o dia e com a tensão de vez por todas. 

E como essa pedra nunca veio, tudo acabou - quatro horas depois do planejado originalmente - com uma subida de 1.200 metros praticamente dentro de Gramado. Nenhum de nós sabia dessa subida. Todos já estavamos comemorando a chegada secretamente, pensando no banho quente e no café colonial, e eis que depois de uma curva à direita - a última curva antes de Gramado - surge o asfalto. Um asfalto que trouxe ao mesmo tempo alívio - era bom pedalar no chão liso depois de tantas horas de barro e pedras - e aflição, já que ao invés de seguir plano até a cidade ele empinou-se bruma acima. Não sabíamos quando essa derradeira subida iria acabar, nem onde. Mas acabou. Aliás, acabamos com ela pouco antes dela acabar conosco (quem quiser sentir o que é 34% de inclinação, com praticamente 500 metros acima dos 20%, fique à vontade).  

A bem da verdade, a sensação final é que passei mais tempo descendo a primeira descida e subindo a última subida do que pedalando as quase seis horas entre elas. E se alguém achar que há exagero nessas palavras, é meu convidado para fazer o mesmo trecho em julho, num dia de chuva qualquer. Posso garantir uma coisa - não será necessária nenhuma dose de exagero para trazer de volta uma senhora história para contar. 


Na hora da partida, chuva. Primeira dica para voltar a dormir. 


Não achávamos a entrada da estrada. Segunda dica para voltar a dormir.

Descida íngreme, lama, pedras. Um pé clipado, outro pendurado - a questão não parecia se o tombo iria acontecer, mas quando ele iria acontecer. Tarde demais para pensar em dormir. 

Descer 2.400 metros é coisa rápida. Mas num lugar desses, em uma bike de estrada, com pedras molhadas do começo ao fim, é uma eternidade. 

Pneus 2.3 e posição de MTB ajudam, mas não resolvem. 

Mau lugar para cair. Esse início parecia Paris-Roubaix de ressaca. 

Mas não há mal que sempre dure..........

....nem muro. Esse provavelmente dura alguns invernos. 


Mesmo em um fim de mundo - e nos parecia nessas alturas que já havíamos passado dele - sempre aparece uma igrejinha. 

Essa trabalhou. 
Outra descida com pedras e lama - essa com 15% de inclinação segundo nosso topógrafo. 

As bikes trepidavam tanto que a bolsa do Alex não ficava presa pelas tiras e teve que ser atada à bike com fita isolante. 

Foto pra dizer "passei por lá" (e nunca mais quero voltar). 

O Fantasma Baiano assombrando o inverno Gaúcho nas trilhas....

.....e na derradeira subida. 

Tuesday, July 7, 2015

Serra Catarinense e Gaúcha Off Road - Terceiro Dia

No comments:

Na estrada há dias e dias, momentos e momentos. Entre Cambará do Sul e São Francisco de Paula houve oportunidades de pura diversão, como a travessia dos rios, e situações de desolação total, como o trecho de Várzea do Cedro a São Fransico de Paula - 30 km. de uma estrada que começa o paraíso e acaba um verdadeiro purgatório de pedras e lama. 

Nada, no entanto, que um bom hotel não conserte - e o nosso em Cambará não decepcionou. 

Todas as imagens: Sidnei Assis


Madrugada em Cambará do Sul, vista do hotel. 



Gardelin da Porteira trabalhando de manhã em seu Hotel Office.
Café da manhã (parte dele). 


Como todos os trechos eram planilhados a partir da igreja matriz em cada cidade, todo o dia de manhã iamos à igreja (mas não necessariamente à missa). Cambará do Sul não foi exceção.

- Alex, por que você está sempre sorrindo?
- Meu amigo, não é sorriso não. É frio.

Dizer o que?


Elas surgiam do nada, sempre atrapalhando. 
Único trecho com sombra desde o inicio do pedal - mais ou menos 1km dentro de um reflrorestamento.
Rituais da estrada - abre porteira......


......pula porteira. 



E no meio do nada sempre tem uma casinha. Essa só precisava de uma pintura. 

Menino da Porteira Gardelin perdendo a noção do perigo.

CAPÍTULO À PARTE I - TRAVESSIA DO RIO CIPÓ (vão 80mts.)

A maneira mais segura de cruzar um rio pela primeira vez é fazer uma sondagem - você vai a pé e investiga profundidade e condições do fundo. A minha sondagem disse que embora o rio fosse raso, as pedras eram lisas demais para arriscar passar pedalando. Coloquei portanto minha magrela no ombro e fui......

.......fui......

.....fui......

e cheguei. 

Alex Topógrafo, médico nas horas vagas,  disse que "se cortar eu suturo" e veio......

.....veio.........

....e Cataploft. Vale ressaltra  que dos 3 que tentaram ele foi o que chegou mais longe. Na verdade, em teoria ele atravessou tudo - caiu na beira da praia. 

Menino da Porteira Gardelin,  advogado, disse "se esse Rio me derrubar eu processo ele e todas as pedras que estão aí". Disposto a superar Alex, acabou escorregando nos primeiros 10 metros e veio empurrando a bike. 
Você sabe que o sujeito não é nem nunca vai ser fotógrafo quando ele senta desse jeito pra bater uma foto.....

.....e o resultado é esse. Talvez se virarmos de ponta-cabeça fique melhor.  

Reflorestamento de um lado, nada do outro. Monotonia e monocromia. 

O que são um ponto vermelho e um ponto amarelo no meio do campo?

CAPÍTULO À PARTE II -TRAVESSIA DO PASSO DA ILHA (vão 160 mts.)

Dessa vez não houve sondagem. Bike no ombro, meias no bolso, sapatilha nas mãos, sinal da cruz e simbora. 

A travessia em si tem 3 problemas: fundo irregular, pedras lisas e correnteza forte em alguns lugares (sem falar da distãncia entre as margens). 

Pelo menos a foto fica bonitinha.......

Menino da Porteira e Topógrafo dessa vez (des)vestiram as sapatilhas da humildade e decidiram atravessar sem pedalar. 

- Gardelin: "Vou processar esse rio também"
- Alex: "Ôxi água fria da pooooooooooorrrrra"

Você olha esse horizonte, percebe que ainda faltam algmas horas pra chegar e começa a  pensar na janta. Eu, pelo menos, penso. 

Aí aparece pela frente uma estrada dessas e lá se vai o apetite pelo barranco.


A sede, porém, continua a afligir outros, que nesse caso a desafiam com a melhor cerveja do mundo (segundo, é claro, os Gaúchos).

CENAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO
20 minutos para descer 2.400 metros. Pedras ruins é uma coisa. Pedras molhadas é outra coisa, bem pior.