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Saturday, September 13, 2014

Poucos, Sim; Medíocres Não.

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"O boleiro está agachado no canto da cancha, aparentemente com algum problema nos gomos da sola de seu tênis. Os amigos que jogam em seu time aguardam seu retorno ao bate bola";

"O Barcelona, que é um time mediano.....";

" Mesmo quando está frio o cara não usa  casaco porque senão suaria muito";

Estas frases, supostamente ditas por um locutor esportivo durante uma partida entre Barcelona e outro time qualquer da liga Européia, são fictícias.

"O atleta está agachado na beira da pista, aparentemente com algum problema nas travas do seu sapato";

"A Saxo Tinkof, que é uma equipe mediana, ......"

"Os pilotos olham constantemente para trás porque as bicicletas usadas nessas competições não tem espelho retrovisor, para não atrapalhar a aerodinâmica".

Estas frases, além de outras do mesmo quilate, ditas por dois locutores da Fox 2 ao longo dessa semana, durante a transmissão da Volta da Grâ-Bretanha, não são fictícias.

Sendo o nosso país o Brasil, cuja tradição no futebol é proporcional á falta de tradição no ciclismo, fato e ficção parecem, à primeira vista, estar nos lugares certos. Afinal, por um lado ninguém espera ouvir ou assistir uma partida de futebol narrada por locutor(es) cujo conhecimento profundo do esporte não seja enraizado tanto na prática como na teoria. O narrador ou locutor pode até ser controvertido, mas jamais ignorante.

Por outro, como o histórico de transmissões de provas ciclísticas por aqui é tão parco e recente que as expectativas em relação à qualidade da narração são sobrepostas pelo entusiasmo de poder, enfim, ver uma corrida importante com narração em português e fora da internet, é menos difícil de acreditar que uma emissora teria coragem de transmitir a Volta da Grâ-Bretanha usando como narradores dois indivíduos que, tudo indica, não andam de bicicleta (perdoável) e não tem o menor conhecimento linguístico, técnico e histórico do ciclismo de estrada atual (absolutamente imperdoável).

 Primeiro porque, ao contrário do que alguns mais pueris acreditam, a emissora - seja a Fox ou qualquer outra - não transmite provas de ciclismo porque gosta de ciclistas ou quer fomentar o esporte. Ela o faz porque viu no público que assistiria essas provas um consumidor de algo que pode ser anunciado nos intervalos ou mostrado nos uniformes. Em resumo, a Raposa II acredita que vai ganhar dinheiro vendendo anúncios para empresas que querem nos vender alguma coisa. Somos, portanto, "publico alvo" e não objeto de caridade ou favor.

Em segundo lugar, o locutor não é um mero elo entre a prova e o espectador. Ele é um convidado especial - o trazemos para dentro de casa, junto do nosso sofá - para um evento especial. Contamos com ele para nos informar, nos entusiasmar, nos surpreender - somos clientes famintos, a emissora é o restaurante, a prova é o prato principal e o locutor é o responsável pelo tempero. E para casos em que o dito chef não entende nada do prato do dia, sempre é possível chamar alguém para ajudar - temos por aqui Mauro Ribeiro, Celso Anderson, Murillo Fisher e Leandro Bittar, só para citar alguns com experiência na atividade.

Diante disso, encarar a narração por vezes absurda da Volta da Grã Bretanha pelos comentaristas da Fox como a metade cheia do copo meio vazio - "devemos e agradecer por haver transmissão já antes nem havia" - é raciocínio análogo a participar de uma prova em que não há postos de hidratação suficientes nem segurança apropriada e depois ir embora dizendo que "melhor desse jeito do que prova nenhuma".  Em ambos os casos, o que perpetua a existência do produto medíocre não é tanto a colocação dele no mercado pelos produtores como a sua aceitação pelos consumidores.

Que me perdoem portanto os que aplaudem a iniciativa da Fox ao nos propor um copo meio cheio. Na minha ótica, se a água é grátis, tudo bem. Vale olhar a metade cheia e até encarar gosto de cloro. Mas se for paga, tem que ser copo cheio, fechado e com água pura.

Saturday, September 6, 2014

"A*#E%&ORIA"

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Mal começou a carta com o pedido de patrocínio e já estava com um problema. Nada de drama de consciência, já que afinal a falta de dinheiro era legítima, mas outro muito pior: um drama de ortografia, e de cara na primeira lnha:

"Sou atleta amador e treino com a A.....". Piscando depois do "A", o cursor aguardava sua decisão. O som era de "s", mas isso mais atrapalhava que ajudava, já que as possibilidades de representação gráfica eram, além do próprio "s", o "ç", o "c", o "sc" e o "ss".

"Bom, só me resta o Google", pensou, apenas para ser afligido por outro drama - ele sabia soletrar "Google" direitinho, embora o som "gúgou" não tivesse quase nada a ver com a escrita e a palavra pertencesse a língua nenhuma, mas não conseguia soletrar uma outra palavra, essa da sua própria língua nativa. "Dicionário online é para os fracos. Vou resolver isso por meus próprios meios", decidiu resoluto. Passando a mão em um pedaço de papel e uma caneta, partiu para a inteligência bruta e começou a listar todas as possibilidades imagináveis para escrever a palavra que o desafiava, não se acanhando mesmo diante das mais absurdas:

ACESSORIA
ACESORIA
ACEÇORIA
ASSESSORIA
ASSEÇORIA
ASSESORIA
AÇEÇORIA
AÇESORIA
AÇESSORIA
ASCESSORIA
ASCESORIA
ASCEÇORIA

Finda a lista, contemplou sua obra. Concluiu de imediato que se existia algo como os dez pecados capitais contra a ortografia, acabara de cometer todos e ainda inventara mais um. Carlos Drummond de Andrade, naquelas alturas, revirava-se no túmulo diante de mais um assassinato (ou seria açascinato?) do seu idioma. Para os puristas da língua, sua lista nada mais seria que pornortografia do pior tipo e, ele próprio, um pervertido literal.

Logo ele, que sempre repassava aqueles emails com placas em algum lugar no fim do mundo aniquilando com a língua portuguesa. Uma delas lhe veio à mente em particular:

"Ingrêis eu não manjo mais portugêis eu distróio".

Decidido mesmo assim a acabar seu trabalho, pôs-se a examinar cada uma das possibilidades com mais atenção, principalmente porque tinha certeza que no meio daquelas palavras perdidas havia uma que poderia lhe redimir. Na medida em que lia, tentava eliminá-las ou aprová-las:

Acessoria - plausível, já que "acesso" era uma palavra de grafia conhecida;
Acesoria - algo nela meio estranho - parecia mais ibérica que lusitana;
Aceçoria -  só se fosse parte de uma atrocidade maior, como "Aceçoria Exportiva Assão Total";
Assessoria - parecia coisa de milionário - A$$e$$oria - mas também plausível;
Asseçoria - não lembrava de nenhuma palavra em português com dois "s" e cedilha, então resolveu descartar;
Assesoria - lembrou-se  que entre "e" e "o", "s" tem som de "z", então essa e a segunda estavam fora;
Açeçoria - barroco demais, cheva a parecer turco;
Açesoria - "s" com som de "z", fora;
Açessoria - palavra com dois "s" e cedilha, fora.
Ascessoria - só se fosse em outra placa aberrante, como "Ascessoria Ispecífica do Teatrlon";
Ascesoria - "s" com som de "z", fora;
Asceçoria - improvável a não ser com uma pequena modificação "Santiago e sua Ascençoria estarão participando do Ironman...."

Essas eram as possibilidades racionais. Enquanto trabalhava com elas, sua mente já totalmente desinibida de preconceitos ortográficos e semânticos apareceu ainda com mais duas:

Acessorria: grupo de atletas sempre alegres;
Aasseessoorriiaa - "Performance em Dobro";

Ao final, descartados os devaneios, duas possibilidades restavam: ASSESSORIA e ACESSORIA. Uma, o pecado inventado; a outra, sua redenção. Agora, não se tratava mais de um pedido de patrocínio e sim de salvar sua alma do inferno léxico.

Recomeçou a carta:

"Sou atleta amador e treino com a Acessoria......."

Apagou e tornou a escrever:

"Sou alteta amador e treino com a Assessoria.....".

Suspirou. Por que não se chamavam simplesmente "Grupos Esportivos" ou Consultorias Esportivas? "Maldita hora em que Cabral parou aqui. Bem poderia ter sido algum outro europeu de língua nativa mais acessível. James Cook, por exemplo. Se essa carta fosse em inglês......"

Subitamente animado, recomeçou a escrever:

"Sou atleta amador e treino com o coach.......

Perfeito. Ficava até mais chique. E bem como no caso de "gúgou", ele sabia exatamente como soletrar "coutch" corretamente. Prosseguiu em sua carta, animado.

Talvez não conseguisse o patrocínio, mas tinha certeza que havia chegado a uma verdade importante: o inferno era uma ditadura controlada por Camões; já o paraíso, uma social-democracia governada pela ala liberal de Shakespeare.


Moral da crônica segundo o próprio: "Há mais coisas entre o ésse e o som do ésse do que você pode imaginar em sua vã filosofia, Horácio".


Tuesday, September 2, 2014

Ora Bombas

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Algum aeroporto nos Estados Unidos, vésperas do mundial de 70.3 de Las Vegas. Depois de passar pelo controle de passaporte e retirar suas bagagens, um grupo de passageiros encaminha-se para a alfândega. Dentre eles, um amigo meu, carioca da gema - daqueles de falar "aí merrrmãun" no início de qualquer frase - e um outro brasileiro desconhecido, ambos a caminho da prova.

Meu amigo carioca atrás, o outro brazuca na frente, chega a vez deles de passar pelo raio X. O fiscal pede ao desconhecido que abra a mala com a bicicleta dentro.

- Please, open the case.

Pelos gestos, o rapaz, que obviamente não falava nada de inglês e provavelmente entendia tão pouco quanto, abriu-a. O fiscal olhou aqui, mexeu ali, e pareceu interessar-se pela bomba de pé, que para todos os efeitos tem alguma semelhança com aqueles detonadores remotos de explosivo - especialmente os de filmes de ação americanos.

- What´s this? - perguntou o agente apontando para a bomba, uma sobrancelha já levantada.

Aí o rapaz, cujo vocabulário era limitado a "yes", "no" e "f**k", pensou em usar essa última palavra mas na última hora desistiu em favor de uma tradução literal. Para ajudar na compreensão, resolveu fazer mímica.

- "Dis -...falou ele no que acreditava ser inglês, ao mesmo tempo  apontando para a bomba e fazendo aquele gesto de quem empurra o êmbolo para baixo... - dis is bomb".

Silêncio sepulcral. A palavra "bomb" ecoou para longe do saguão e para fundo dos ouvidos do agente, que meio incrédulo semicerrou os olhos e retrucou:

- WHAT?

- Bomb.....respondeu o mais novo terrorista brasileiro fazendo novamente o gesto de empurrar o êmbolo.

Dessa vez o silêncio foi substituído pelo pânico. Seguranças surgiram de todos os lados e o rapaz foi imobilizado.

Aí meu amigo carioca tentou intervir:

- Aê Merrmão...... - disse na direção do agente.
- WHAT?
- Sorry...maibróderrr......itsh not a bombi...itsh a pãmpi.
- A pump?
- Yesshh, a pãmpi. No bombi. Bike pâmpi.

Duplamente ressabiado agora, o agente perguntou se meu amigo estava acompanhando o terrorista brasileiro.

- No no no maibróderrr....nenfu. Aími alôni.

Então meu amigo foi instruído a cuidar do nariz dele e ir andando.

Não sei o que houve com o outro brasileiro, mas a última vez que foi visto pelo meu amigo estava sendo levado para a sala da segurança, onde certamente deve ter passado maus bocados até fazer os gringos entender que embora bomba fosse pump e bomb, ele achou que pump fosse bomba e não bomb. Ou qualquer coisa assim.

Por isso acho altamente aconselhável aprender alguns termos básicos em inglês para evitar esse tipo de encrenca. Assim, a lição de hoje é:

Bomba de pé = Foot Pump (pron. fut pãmp ou futchi pãmpi, dependendo se você for brasileiro ou carioca). E na dúvida, melhor não usar gestos.


Saturday, August 23, 2014

A Do Banheiro

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-  Te contei a do banheiro?

A pergunta chegou meio do nada, enquanto um amigo relatava suas desventuras durante o último Ironman Brasil em Florianópolis.

- Se foi algo entre você e um banheiro, graças a Deus não - retruquei.
- Mas essa eu tenho que te contar.
- Não sei se eu quero ouvir.

Conversamos mais um pouco e ele seguiu no relato sem fazer menção do banheiro. Uma natação sem grandes eventos, a não ser pela voluntária que junto com a roupa de borracha arrancou sua sunga ("Filha, não se apavore; quem já viu isso não se assusta e quem nunca viu não sabe o que é....agora devolve aí o meu calção que eu preciso ir embora" - disse ele deitado no chão, nu igual bebê no fraldário, enquanto a moça, petrificada e boquiaberta, segurava a sunga;); um pedal sem grandes eventos a não ser pela parada não-programada para urinar, seguida de uma ameaça verbal de uma das motos de fiscais ("se não guardar o documento agora vai tomar cinco minutos na transição" - disse o zeloso fiscal, obviamente mais preocupado com perus à solta do que com patos enfileirados). Já a corrida, essa foi sem eventos até um pouco mais da metade da distância total, quando ele foi obrigado a mais uma parada-não-programada.

- Agora vai começar a parte do banheiro né? - perguntei a ele ressabiado.
- Vai.
- Tomara que isso não seja traumático.
- Só pra mim, te garanto.

Meus temores nem um pouco alividados, o relato continuou.

Ocorre que a fim de não ser desclassificado por atentado ao pudor se fosse novamente abordado pelo mesmo fiscal com seus documentos à mostra em local público, meu amigo esperou chegar a um daqueles simpáticos banheiros químicos para atender ao novo chamado da mãe natureza.

Para quem não os conhece, esses banheiros lembram bastante em altura e largura aquela cabine telefônica onde Clark Kent virava Super Homen - só que no lugar do telefone há um buraco cheio de produtos químicos que transformam resíduos sólidos e líquidos da nossa digestão em alguma outra massa disforme e supostamente de odor menos desagradável. Lembra bastante também um banheiro de avião, só que com 1/3 do espaço e nenhum encanamento. Portanto, quanto mais usuários passam pelo banheiro antes de você, tanto mais traumática pode ser a experiência de usá-los. E dali de dentro, ao invés do Super Homem renascido, muitas vezes sai você mesmo sentindo-se um pouco pior do que quando entrou.  Em resumo, o banheiro químico está para as necessidades fisiológicas assim como o motel está para o sexo - um facilitador de atividades que só deveriam mesmo ser feitas dentro de casa e com total privacidade.

Pouco preocupado nessas alturas com o número de visitantes anteriores a ele, meu amigo entrou correndo no banheiro. Atrás de si, ouviu a porta fazer um "clic". "Engraçado esse barulho, nunca tinha ouvido antes", pensou ele enquanto se acomodava no recinto. "Vou bater o lap para descontar o tempo parado aqui do tempo total", pensou também enquanto olhava para o relógio. Findos os trabalhos, pôs-se de pé, empurrou a porta e....nada. A porta não abriu. Empurrou novamente com mais força e...nada. Suspirou e lembrou-se do "clic". "Alguma coisa deve ter emperrado a porta", concluiu.

- Calma - disse ele para ele mesmo.
- Calma o &*%$#@ - respondeu ele mesmo para ele. - Já perdi tempo demais com aquela doida que me deixou pelado, depois com o fiscal de perus e agora essa *&¨%*  de banheiro. Vou é arrebentar tudo isso aqui e vai ser agora.

Empurrou a porta, dessa vez com as duas mãos e com mais força. A porta nem se mexeu. Já o banheiro, em compensação, pareceu inclinar-se um pouco para o lado, para depois voltar ao prumo normal. Incrédulo, tentou acalmar-se novamente. "Quem sabe eu tenha que puxar a porta e não empurrar!". Puxou. Uma, duas, três vezes. Nada.

- ALGUÉM AÍ FORA??? - gritou ele de dentro de sua esverdeada e agora ainda mais fedorenta prisão, esperando contar com a ajuda do próximo da fila.

Ninguém respondeu. "E se havia alguém esperando, provavelmente saiu correndo depois de ouvir as pancadas na porta", concluiu ele contrafeito.

"Bom, se não abre por bem, vai abrir por mal". E tentou arrombar a porta usando primeiro uma e depois ambas as pernas. Novamente, tudo o que conseguiu foi sacudir o banheiro todo a ponto de quase fazê-lo tombar. Na verdade, depois de algumas tentativas infrutíferas com chutes e pontapés, começava a achar que o banheiro já estava irremediavelmente inclinado para um dos lados - uma mini Torre Inclinada de Pisa (ou "Leaning Tower of Piss", numa tradução mais que literal). Cansado, suado e inconformado, sentou-se no trono e ponderou: "Era o que me faltava. Todo mundo lá fora correndo, o meu tempo passando e eu preso aqui. Aposto que foi aquele fiscal de *&%$@ que sabotou a @#$%&  da porta".

"Bom", resignou-se, " só vai ter um jeito de sair daqui e é derrubando esse negócio inteiro no chão". Olhando em volta, intuiu que se ficasse pendurado no teto e fizesse um movimento pendular com o tronco, batendo os pés com toda força na parte de cima da porta, acabaria tombando a estrutura. Por um segundo, antes de colocar-se na posição de ataque definitiva, visualizou que as consequências de tombar um banheiro químico no estado de utilização daquele não seriam nada salubres. Mas pior, sem dúvida, seria ficar ali dentro até a turma da manutenção aparecer. "De qualquer jeito vai dar %$#@*, então que dê logo de uma vez. Só espero não ter que tomar um banho para acabar a prova depois".

Pendurou-se então no teto pelas laterais, jogou o corpo para trás e lançou-o de volta para frente com toda a energia e entusiasmo que ainda lhe restavam. Antes que suas pernas encostassem na porta, entretanto, o teto de plástico desabou sob o seu peso, e ele, até então somente derrotado pelas leis de Murphy, foi definitivamente nocauteado pela lei da gravidade,  que sem qualquer cerimônia tirou-o do espaço entre o teto e o chão para colocá-lo no único lugar possível em caso de aterrissagem forçada - o buraco da latrina. Não simplesmente sentado, que fique claro, pois com o tronco e parte das pernas afundados buraco adentro e os joelhos quase encostando no tronco, havia ficado praticamente atolado.

Diante da visão do pórtico de chegada cada vez mais distante e embaçada, começou a imaginar o que diria para os amigos que o apoiaram, para os colegas de treino, para os familiares. Pior - começou a imaginar o que diriam os colegas de treino, familiares e amigos ao saber de sua história.  Provavelmente "Shit happens, man". E ele, ao invés de IronMan, passaria a ser o ShitHappensMan. "Se pelo menos eu conseguisse alcançar a descarga acabava com tudo agora mesmo de uma vez por todas", filosofou em seu próprio julgamento final.

Mas como não há mal que sempre dure, finalmente alguém tentou abrir a porta e, não conseguindo, perguntou se "estava ocupado".

- Amigo, pra falar a verdade não estou ocupado, só entalado e bastante preocupado. A porta emperrou e eu tenho uma prova de Ironman pra acabar. Será que você pode me dar uma mãozinha aqui?

Suficiente dizer que o resgate foi feito - pelo teto - e que meu amigo, uma vez recomposto, ainda conseguiu acabar sua prova 15 minutos abaixo do tempo previsto.

Ao final do relato, não resisti e perguntei:

- E o botão do lap - você bateu quando saiu de lá?
- Bati. Foram vinte e dois minutos ali dentro.

Fiz uma careta, ele suspirou e concluiu:

- De hoje em diante, cinco minutos sentado no penalty box é praticamente o paraíso. Dá próxima vez, com fiscal por perto ou sem, eu cago no meio da rua mesmo.

Ironman Ltda., S.A., etc.

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Em uma das infindáveis discussões sobre os prós e contras da transformação do Ironman em um negócio, li em um fórum que  "o impacto disso no triatlon é o mesmo que teria havido nas corridas de rua se alguém houvesse patenteado o nome "Maratona", criado um logotipo qualquer sobre o tema , e passasse a ter os direitos comerciais sobre provas e mercadorias vinculados a esse nome. O corredor em si vai pagar cada vez mais caro pelas inscrições e terá cada vez menos controle sobre as regras nas suas maratonas".

Sempre considerei essa uma analogia perfeita. A partir do momento em que as rédeas de uma modalidade esportiva saem do controle daqueles que a praticam ou que a vivem de perto e passam para a mão de investidores sem qualquer conexão emocional com sua prática, os destinos da modalidade não necessariamente vão de encontro aos anseios de seus praticantes e fomentadores.

No caso específico da marca Ironman, eventos recentes mostram que essas rédeas não só continuam muito distantes das mãos dos praticantes como ainda podem, a curto prazo, ficar sem governo unificado (o que talvez fosse muito bom)  - ou mesmo sem governo (o que certamente seria ruim). Para que esses eventos sejam contextualizados, antes de apresentá-los cabe uma pequena história da marca Ironman desde o primeiro evento amador com o nome em 1978  até as atuais 110 provas profissionais em 6 continentes e 27 países.....

Após a realização dos 3 primeiros eventos em Honolulu sob a direção de John Collins - idealizador da prova - a dona de uma rede de academias de ginástica no Hawaii chamada Valerie Silk, atendendo a pedidos de Collins, que teve que mudar-se da ilha, assumiu o Ironman juntamente com seu marido Hank. Nessa época o Ironman nada mais era do que uma prova amadora, realizada por amadores para amadores. Durante a década de 90, Valerie transformou o Ironman em evento profissional (1985), criou as Qualifying Races, mudou a prova de Honolulu para Kona (por questões de segurança) e mudou o mês de realização de fevereiro para outubro (idem, já que fevereiro é mês de ondas grandes). Valerie está portanto para o triatlon como João Havelange está para o futebol - ambos inciaram a transformação de um esporte amador em um negócio profissional.

Em 1990, um oftalmologista / triatleta chamado James Gills comprou o Ironman Hawaii, registrado formalmente por Silk como Hawaiian Triathlon Corporation, por 3 milhões de dólares. Gill então fundou a World Triathlon Corporation, empresa que hoje detém os direitos mundiais sobre a marca e cujo objetivo passou a ser difundir o esporte ao redor do globo e captar recursos para oferecer melhores prêmios em dinheiro aos profissionais (e, obviamente, ser lucrativa). Entre 1990 e 2004, WTC era uma empresa licenciadora de eventos - ou seja, ela cedia os direitos de uso da marca Ironman para organizadores de prova e fabricantes de material esportivo e recolhia uma comissão da receita gerada. A partir de então, sob o comando de Ben Fertic como CEO, a WTC passou de licenciadora a organizadora de eventos e gradualmente assumiu o controle de provas exploradas antes por organizadores locais e a criar outros novos eventos em paralelo. Finalmente, em 2008, a WTC foi vendida para um fundo de capital privado chamado PEP - Providence Equity Partners, especializado em comprar, reestruturar, valorizar e depois vender negócios nas áreas de comunicação, marketing e esportes.

Ao longo desses últimos seis anos, estima-se que o valor do Iroman tenha passado $ 20 para $ 200 milhões - indicando que pelo menos a tarefa de valorização crescimento foi atingida pelo PEP. Ocorre que, segundo analistas, o tempo de maturação de um negócio como o da WTC está praticamente no limite, e não seria surpresa se a empresa fosse vendida novamente para remunerar a pleno o capital dos investidores dentro dos próximos 2 anos. Para quem ela seria vendida importa, para os atletas, bem mais do que por quanto, já que as decisões do WTC afetam diretamente quem quer fazer uma prova de Ironman ou 70.3 em qualquer lugar do planeta (nesse sentido, a última pessoa ligada diretamente ao esporte e que fazia parte dos "donos" da WTC foi Jesse Du Bay, que intermediou a venda para a PEP e depois desligou-se dela). Atualmente, todas as decisões que afetam o esporte são tomadas com base em uma métrica muito simples - a maneira mais lucrativa de conduzir o negócio é "x", e enquanto houver público pagante que aceite essas regras impostas por "x", vamos em frente. Os descontentes, seja com o preço da inscrição, com a topografia do percurso ou com o fato de que a partir de 2015 haverão 9 provas de IM nos Estados Unidos sem prêmio em dinheiro e sem vagas para Kona (possivelmente com outras mundo afora na sequência), podem gritar, espernear e ameaçar boicotes, mas se atrás deles a fila de interessados for grande - e com 2000 inscrições esgotando-se em minutos para muitas provas fica claro que ela é - de nada vai adiantar. Os sócios do PEP, ou o próximo dono, continuarão fumando seus charutos, contando seus dólares e respondendo aos descontentes com o clássico "Well, you can just kiss my ass".

O fato da WTC ter recentemente anunciado a captação de um financiamento de $ 200 milhões, com mais 20 (milhões) de crédito rotativo disponível, indicam que talvez os acionistas da PEP tenham optado por receber seus dividendos antecipadamente - ou que tenham achado através dessa manobra uma maneira legal de pagar menos impostos pela remuneração do capital. Já para alguns especuladores menos otimistas, esse empréstimo indica que uma saída para ver a cor do dinheiro antes que a curva entre em decrescente e o valor da empresa caia.

O que quer que o futuro tenha reservado, uma coisa é certa: a partir do momento em que o M-Dot e o nome "Ironman" deixaram de ser o símbolo de uma tribo para tornar-se uma marca - como Coca Cola, Volkswagen ou Tubaína - e marcas são um veículo de geração de lucro antes e acima de qualquer coisa, tatuá-los no corpo implica em dois riscos: o primeiro, de fazer na própria pele propaganda de uma marca cujo posicionamento no mercado mude a ponto de não ter tem mais nada em comum com os anseios do dono da pele. Esse, de certa maneira, já é o caso para alguns puristas, e pode vir a ser o caso para tantos outros se o próximo dono do WTC for obrigado a "inovar" para reaver seu capital.

O segundo, e com certeza pior, é ter gravado na pele o símbolo de uma idéia corrompida e de um negócio falido. Me parece que esse seja também um cenário remoto - a menos que algo de muito errado venha sendo feito pela administração financeira do WTC, tudo indica que o negócio Ironman ainda é, tanto na gestão de provas como no licenciamento para merchandising, altamente rentável.

Diante disso, pelo menos por hora, embora possa haver cada vez mais descontentes, os únicos que teriam motivos para ficar realmente preocupados são os tatuadores.