terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ENQUANTO VOCES DORMIAM IV - O BESTIÁRIO

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Obs. esse texto não é um causo em si. Ele é uma introdução ao local que serviu de palco para o Maior Causo dos madrugadores, a ser publicado na sequência, bem como do tipo de gente que freqüentava esse local.

O Bestiário era, para nós, Solo Sagrado. Nas catacumbas da Escola de Natação Amaral, em nossa caverna azulejada, deixávamos para trás o Homo Sapiens, e descíamos (ou subíamos, dependendo do ponto de vista) alguns degraus na escala de evolução. Era ali, em meio à neblina dos chuveiros, que recuperávamos nossas forças sob a água quente - contando piadas, descobrindo pecadilhos e pecadíssimos, subornando os pecadores (um belo café da manhã em Hotel de luxo depois do treino era suficiente) e resolvendo todos os problemas antigos do mundo - pois às 7 da manhã, ainda não haviam saído do forno os problemas novos.

Ao longo dos anos, os mitos em torno do Bestiário foram criando corpo, e nasceu um Código de Conduta. Esse Código, que começou com alguns itens e terminou com mais de Cem, deixava bem claro qual era o comportamento esperado dentro daquele recinto. Eu tentei localizar exemplares perdidos desse Código (alguns foram impressos), mas nem uma página sequer apareceu. O veneno do conteúdo deve ter desintegrado todas.

Como ele era composto basicamente de Coisas Proibidas dentro do Bestiário, e eu fiz parte do Comitê que elaborou o dito cujo, me recordo de alguns itens:

Proibido Chinelos de qualquer espécie;
Proibido Creme de barba e barbeador; fazer a barba, só com navalha;
Proibido Roupão, mesmo no inverno;
Cueca, só branca;
Pentear-se, somente com a mão;
Proibido olhar-se no espelho por mais de 5 segundos;

Os seguintes itens e comportamentos implicavam em expulsão sumária:

- Creme de pele;
- Pantufa;
- Perfume;
- Cueca de qualquer cor que não fosse branca;
- Mocassim;
- Gel para o cabelo;
- Secador de Cabelos;
- Escova de cabelos (pentes eram tolerados)
- Olhar para um outro Madrugador pelado por mais de 2 segundos (um segundo basta pra reconheçer, e outro pra cumprimentar)

Essa é uma amostra pequena, mas creio que dá o tom.

O mais importante, entretanto, era observar o que não estava escrito em lugar nenhum: naquele lugar, as paredes tinham ouvidos, as janelas tinham olhos, e o chão tinha memória fotográfica. Portanto, tudo o que fosse dito e feito - principalmente de errado - seria lembrado, e cedo ou tarde o preço pelo descuido teria que ser pago pelo Descuidado.

Embora hoje o Bestiário como ele foi concebido exista somente na memória de alguns, as coisas feitas e ditas na época continuarão sendo lembradas, tanto pelas paredes, janelas e pelo chão, como pelos membros - para sempre. Um dos seguidores desse blog, fundador e membro do mais alto grau da Irmandade do Bestiário, que me corrija se eu estiver errado.

m.

ENQUANTO VOCES DORMIAM III - FOI MOLEZA

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Embora o horário oficial de início dos treinos para os Masters da Madrugada fosse 5:45, havia freqüentemente alguém atrasado. Os retardatários tinham sempre uma boa desculpa - despertador quebrou; dormiu demais; esqueceu a sunga; a esposa pediu pra ficar; errou o caminho; foi atacado por um vampiro; viu o lobisomen; e por aí afora. Houve, porém, uma desculpa que suplantou a todas as outras. Acredito, por mais incrível que possa parecer à primeira vista, na veracidade da história, pois conhecia razoavelmente bem os personagens envolvidos - tanto as pessoas como o veículo.

Antes de ir ao causo propriamente dito, cabe uma pequena introdução desses personagens. Como não tenho contato com eles faz muito tempo, foi impossível pedir permissão para usar os seus nomes; assim, por hora ficarão anônimos, protegidos pelas alcunhas de "Patriarca", "Matriarca"a e "Filhos" (que são 4, embora só dois tenham feito parte desse episódio).

O Patriarca, além de madrugador, era um montanhista inverterado, tendo no currículo uma ascensão ao Aconcágua, e inúmeras às principais montanhas Paranaenses. Além disso, foi guia dos Madrugadores em pelo menos uma subida ao Pico Marumbi. Bom nadador e corredor, não satisfeito em trazer a sua carcaça para nadar antes do sol nascer, acabou convencendo - ou arrastando, nunca saberemos - a esposa e os dois filhos mais velhos para os treinos.

Vez por outra, o transporte da família era feito em uma Kombi cabine dupla, na qual eu tive o prazer de viajar uma vez. Dessa viagem, uma lembrança que não se apagou: não importava se serra acima ou serra abaixo, nem a velocidade da Kombi ou dos outros veículos, o Patriarca SEMPRE andava do lado esquerdo da pista. E uma Kombi, por menos devagar que ande, não tem como se manter muito tempo na faixa da esquerda sem começar a causar confusão. Perdi a conta de quantas fezes fomos ameaçados, xingados, fechados e jurados de morte no trajeto. Por pouco, muito pouco, minha esposa, que na época esperava nosso primeiro filho, não deu à luz no banco de trás da tal Kombi. No banco da frente, ao volante, o Patriarca seguia impávido, tranqüilo, indiferente à todas as afrontas. "Eles que passem pelo outro lado", dizia ele.

Pois bem. Introduções feitas, agora ao causo propriamente dito.

Umas seis e pouco da manhã, com o dia começando a clarear e a série principal em já em andamento, chega o Patriarca com a família. Trocam de roupa, e vão se aproximando da piscina. Ele entra na raia ao lado da minha.

- Ôrra *****, isso são horas?
- Não deu pra chegar antes. O câmbio da Kombi quebrou.
- Essa do câmbio é nova - palpitou alguém.
- Caramba, que azar. Vieram de taxi? - falou outro.
- Não, a gente veio com a Kombi mesmo.
- Ué? Você conseguiu arrumar o câmbio? - perguntei eu.

Nesse ponto da conversa, como toda a oportunidade de matar o treino era bem vinda, já estavam todos pendurados nas raias, escutando a mais nova desculpa do pedaço. Até o Célio tinha largado o giz com o qual anotava os tempos no quadro, e veio escutar de perto.

- Não, o câmbio continua quebrado.
- Vai dizer que vieram empurrando?
- Não. A gente veio de ré.

Isso foi dito pelo Patriarca como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ouviram-se as primeiras risadas.

- Inventa outra, #####
- É sério; a ré é a única marcha que entra.

Aqui, eu começei a imaginar o Patriarca dirigindo a Kombi de ré, sempre do lado esquerdo da pista, no percurso entre a casa dele e a piscina. Como eu sabia exatamente onde ficava a casa dele, para aliviar os meus pensamentos, perguntei:

- Onde foi que esse câmbio quebrou, #####?
- Lá em casa.

Era o que eu temia ouvir.

- Então quer dizer que vocês vieram desde lá até aqui - de ré?
- Ahhan - respondeu o patriarca arrumando os óculos.

Eles moravam, na época, no Uberaba. Para quem não conhece Curitiba, o Uberaba fica próximo ao Aeroporto Afonso Pena, e dista uns 17, 18km do local onde nadávamos.

- E como você fez pra dirigir toda essa distância de ré?
- Foi moleza....as crianças ajudaram olhando pelo vidro de trás.
- E você?
- Ah, eu vim com a cabeça pro lado de fora, só pra garantir.

Dando por encerrada a entrevista, o Patriarca olhou para o quadro, assimilou a parte inicial do treino, afundou a cabeça na água, tomou um longo impulso, e foi-se embora nadando. No seu rastro, milhares de bolhas, e uma dezena de Madrugadores embasbacados.

Esse era o tipo de gente que freqüentava a nossa piscina de madrugada. Gente capaz de dirigir quase 20km de ré numa Kombi dentro da cidade para não perder um treino e ainda achar que "foi moleza".

A última vez que vi o Patriarca, ele estava na Ilha da família, próxima a Governador Celso Ramos, em Santa Catarina. Aliás, qualquer semelhança entre o Patriarca e Robinson Crusoé não seria mera coincidência. Ele ergueu na marra, nessa ilha, um chalé de 4 pisos, sem derrubar uma árvore. Mas isso é outro causo.....

Onde quer que eles estejam agora, espero que estejam bem e com saúde.

m.

domingo, 27 de dezembro de 2009

ENQUANTO VOCÊS DORMIAM - EPISÓDIO II - O OTÁRIO

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Só quem mora em Curitiba tem idéia do quanto treinar nessa cidade no inverno é difícil. Chove muito, faz bastante frio, e a cobertura cinzenta do céu inspira mais a comer e beber do que praticar atividades físicas.

No entanto, os Madrugadores Ortodoxos não se detém pelos rigores do inverno Curitibano. Afinal, segundo eles, "a piscina é aquecida". Por causa de tanta disciplina e falta de bom senso, nos meses de maio, junho e julho principalmente, várias provações aguardam esses atletas: sair debaixo das cobertas, tirar o pijama, vestir-se em casa, desvestir-se no vestiário, entrar na água semi-fria, enfrentar o ar gelado entre a piscina e o vestiário, e esperar o chuveiro esquentar. E tudo isso tentando não ficar resfriado ou gripado.

Esse causo aconteceu no primeiro dia de um inverno especialmente rigoroso, e foi protagonizado pelo tal de Maximilian (sobrenome Frederick Leisner, para não dar margem à confusão).

Nessa época, morava o personagem principal em uma chácara. Saia de sua toca no meio do mato às 5 da matina, a fim de cobrir o percurso de pouco mais de 35km até a piscina sem atrasos. No dia em que o causo aconteceu, forte geada cobria toda paisagem. O termômetro (pendurado do lado de fora da casa, para uma leitura precisa da temperatura externa) acusava -4 graus. O Sr. Leisner, protegido por muitos agasalhos, e tendo vencido as duas primeiras barreiras - desvencilhar-se das cobertas, e achar todo o material e as chaves do carro sem irritar muito a esposa, e sem acordar os filhos - partiu para mais uma madrugada na piscina.

Quem já dirigiu no inverno rigoroso sabe de duas coisas: 1) assim que você entra no carro, todos os vidros ficam embaçados, e; 2) isso pode ser remediado ligando-se o ar condicionado no "quente", ou simplesmente o ar quente. Ocorre que o Gol do Sr. Leisner nessa época provavelmente havia sido projetado para ser vendido no Oriente Médio, já que não tinha ar quente. Para piorar as coisas, um bom pedaço do caminho era de estradas secundárias, com as faixas bem gastas, e nenhuma iluminação. Em pouco tempo, dirigir passou de "perigoso" para "impossível". Não se via nada fora do carro.

Agindo por um reflexo enviado pelo cérebro ainda semi-adormecido, Maximilian cometeu seu primeiro erro nessa madrugada: apertou o botão para esguichar água no pára-brisas. Em dois segundos, criou-se do lado de fora desse vidro uma crosta sólida de gelo, sobre a qual o limpador passou a deslizar fazendo um barulho medonho. Agora, além de vapor do lado de dentro do vidro, havia gelo do lado de fora.

A estrada, nesse ponto, era uma reta de cerca de 10km, ladeada por uma favela de péssima reputação à esquerda, por um pântano à direita, e recoberta por uma eterna camada de neblina nas primeiras horas do dia. Consideradas as opções, o genial motorista resolveu seguir adiante da única maneira possível - baixando o vidro, e dirigindo com a cabeça para fora do veículo.

A esperança de resolver tudo antes que a ponta do nariz gangrenasse estava em um posto que ficava no final dessa reta. SE esse posto estivesse aberto, bastaria encostar ali, jogar água no vidro, e seguir adiante. E, para sorte, o posto estava aberto.

De dentro da loja de conveniência, dois frentistas olharam desconfiados para aquele Gol branco, e mais desconfiados ainda para o motorista, que havia chegado dirigindo com a janela aberta e a cabeça para fora do veículo, àquela hora, e naquele frio. "Esse tá chapado", provavelmente pensaram, e por via das dúvidas, resolveram ficar dentro da loja e deixar que o maluco se virasse lá fora.

Tendo encostado o carro ao lado da bomba de combustível, nosso herói achou logo o que procurava: um balde daqueles tipo regador, com o bico longo. A água não estava congelada, e serviria para derreter o gelo do para-brisa. Pegou o regador, e olhou para os frentistas dentro da loja como quem diz "podem ficar aí, Otários; não preciso de vocês". Em seguida, aproximou -se do carro e nesse momento cometeu a primeira parte do seu segundo erro: "se eu ligar o limpador, o gelo vai ser removido mais rapidamente", pensou ele, e ligou o limpador ANTES de jogar a água no vidro. E então, com a segunda parte do erro, veio o apocalipse: postou-se AO LADO do vidro, e despejou de uma vez todo o conteúdo do regador no para-brisas, COM O LIMPADOR LIGADO. Numa fração de segundos, as pás do limpador devolveram toda a água e todo gelo direto para cima vocês-já-sabem-de-quem.

Nesse momento, de dentro da loja de conveniências, um frentista olhou para o outro e pegou o molho de chaves: - Esse cara é perigoso. Melhor trancar a porta.

O resto do trajeto até a piscina foi cumprido com relativa calmaria. Apesar de tudo o que foi feito para que isso não acontecesse, a visibilidade no carro ficou normalizada. Além disso, com as janelas fechadas, a temperatura interna equilibrou-se, e não fosse pelo desconforto causado pela água gelada escorrendo para as partes mais improváveis, e pela auto-estima ferida por ter cometido não uma, mas duas imbecilidades em tão pouco tempo, Max estaria feliz.

Hoje, praticamente 10 anos depois do ocorrido, o desconforto causado pela água gelada e os ferimentos na auto-estima estão só na lembrança. O que não passou, e provavelmente nunca vai passar, é a sensação de que a minha mensagem de "Otário" para os frentistas, antes de chegar à eles, foi devolvida para o emissor com o dobro da intensidade. E, pior, merecidamente.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

ENQUANTO VOCÊS DORMIAM - TIRO DE CINQUENTA METROS MUITO LIVRES

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A volta aos treinos de natação de madrugada trouxe à tona algumas memórias de fatos marcantes, ocorridos na época em que eu e meia dúzia de outros companheiros Masters (ou seja, todos na faixa dos 25 aos 100) freqüentávamos a piscina diariamente, na mesma hora em que os boêmios voltavam para seus lares, os feirantes começavam a sair de casa, e os seres humanos normais ainda dormiam. Os treinos começavam às 5:45 e acabavam às 7, e gente que consegue levantar para nadar a essa hora o ano inteiro (inclusive durante o inverno de Curitiba), pode ser gente fina, gente saudável, gente determinada, mas está longe se ser gente normal.

Bom que foi assim. Se fossem normais, não teríamos vivido tantos momentos inusitados, tresloucados, inesquecíveis, que acho justo gravar para a posteridade. Todos os causos são verdadeiros, bem como os nomes, quando mencionados. Se houver alguma distorção dos fatos, será por distanciamento temporal (i.e. memória fraca), não por intenção.

Vamos, então, ao primeiro causo, que aconteceu já tem uns bons 15 anos.

TIRO DE CINQUENTA METROS MUITO LIVRES

Um dos maiores desafios de nadar de madrugada sempre foi entrar na piscina. O corpo, que até 10 ou 15 minutos atrás estava embaixo das cobertas, vê-se subitamente despido de quase todas as roupas e do aquecimento proporcionado por elas. Pior ainda, vê-se diante da certeza de que terá que entrar em um tanque de água cuja temperatura, nos primeiros cinquenta ou cem metros, provoca um considerável desconforto. Nosso técnico na época, o Venerável Célio Amaral, não era insensível a essa dificuldade, e procurava criar meios de animar esses primeiros momentos.

Havia por exemplo um concurso de "atirar o óculos na fita das bandeirinhas"; quem conseguisse deixar o óculos pendurado na fita ganhava uma toalha, ou algum outro prêmio que me escapa da memória. Se o concurso não atenuava o frio do primeiro contato, pelo menos garantia que ninguém iria desistir de entrar na água e voltar para a cama, já que todos os óculos logo estavam dentro da piscina. Havia também aquecimento com futebol dentro da sala de ginástica (que acabou com a primeira vidraça quebrada), e a eterna ameaça de um súbito empurrão, dado por algum abestalhado que passasse por trás de outro, parado no bloco, pensando "Vou, Não Vou".

Mas como todas as inovações e ameaças, por mais inovadoras e ameaçadoras, acabam virando rotina, uma escura madrugada estávamos todos de pé nos respectivos blocos, contemplando nosso tanquezinho de água clorada e pensando "Vou, Não Vou", quando alguém - acho que foi o Maximilian - teve a idéia de fazer um tiro de 50 metros - para aquecer – só que Sans Sunga. Um Tiro de 50 Ao Natural. Pelados.

O Célio, meio contrariado, aquiesceu. Dos presentes, um ou dois concordaram em fazer o tiro desde que com a sunga. Os demais, imbuídos do espírito do momento, alegremente livraram-se das suas. No instante seguinte, a nossa piscina semi-olímpica foi palco de uma cena que eu duvido já foi vista nesse hemisfério, ou no outro: O Primeiro (e Último) Festival de Natação Sungados x Pelados. Enquanto o Célio montava guarda na porta de acesso à piscina com um olho, pois nessa época havia uma mulher entre nós que ainda não havia chegado, e monitorava o cronômetro com o outro, cada um tomou seu lugar no respectivo bloco - os vestidos preocupados em não perder, e os pelados preocupados com o impacto que certas partes do corpo sofreriam ao entrar na água sem a proteção da sunga. Mas o principal é que nessas alturas, ninguém mais estava preocupado com a temperatura da água.

Não me lembro quem ganhou, mas me lembro de não conseguir respirar direito de tanto que ria. Boiar pelado num rio ou no mar é uma coisa – fazer um tiro de 50m sem sunga, saindo do bloco, e com uma virada olímpica no meio, é outra, completamente diferente. Tipo da coisa que vele a pena fazer uma vez, mas que dificilmente vira hábito. Ou, para quem está se perguntando, que melhora o tempo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

BOM DIA PARA O SENHOR TAMBÉM

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Hoje cedo, ao chegar do pedal, encontrei na entrada do prédio uma senhora que sempre sai de seu apartamento para pitar um cigarrinho. Me vendo, ela perguntou, apontando para a sapatilha: "Para que esses saltinhos embaixo do seu sapato?". Eu dei a resposta menos complicada que me ocorreu - "Para prender a gente na bicicleta". Ela retrucou: "Quer dizer que se a pessoa cai da bicicleta, fica presa nela?". "Em geral, sim" - falei com ar dramático, e entendendo que já havia satisfeito toda a curiosidade ciclística de minha enfumaçada interlocutora, despedi-me com um sorriso e um "Bom dia para a Senhora". "Bom dia para o Senhor também!", foi a resposta dela, que embora tenha sido dada com a maior cortesia, me atingiu como uma cotovelada. Ela me chamou de Senhor? EU? SENHOR?

Subi as escadas pensando naquilo...porque "Senhor" e não "Rapaz", ou "Garoto", ou mesmo "Você"? Entrei em casa, passei rapidamente pela sala, e dei bom dia para a família. Ao beijar meus filhos, constatei (não pela primeira vez) que dois deles já estão mais altos que eu. "Talvez seja isso" pensei; "quando os filhos ficam mais altos que nós, passamos de "Rapaz" para "Senhor".

Antes de tomar a ducha, olhei-me com curiosidade renovada no espelho, em busca de mais respostas. "É o mesmo rosto de vinte anos atrás!!!", foi o primeiro pensamento. "Com certeza - enfeitado pelas primeiras rugas, e tornado mais evidente pela ausência de cabelos", foi o segundo.

Continuei me encarando no espelho, e ao invés de outro pensamento, veio uma constatação visceral, daquelas que não deixam nem sombra para dúvidas ou terceiros pensamentos. O Tempo havia passado. Aliás, não, o Tempo não havia passado, porque Ele não passa. Quem vai passando somos nós, como troncos boiando rio abaixo, rumo à Grande Cascata, enquanto o Rio em si continua no seu lugar. E me dei conta que pelas leis da natureza, o caminho que falta para eu escorregar Grande Cascata abaixo não é muito mais longo do que aquele que eu já percorri até aqui. Portanto, embora eu me sinta como se tivesse 18 anos - e as vezes tenha atitudes de quem tem 10 - uma grandeza maior que a minha vontade de continuar sempre jovem, e mais forte que a minha resistência à força da correnteza que me leva rio abaixo, faz com que essa jornada vá deixando marcas no corpo e na personalidade: menos batimentos na frequência máxima, as primeiras rugas, fios de barba brancos, manias que vão surgindo. Ou seja, estou ficando inexoravelmente mais lento, mais feio e mais esquisitão. E sobretudo, tanto aos olhos dos que me amam quanto aos dos que me detestam, sem contar daqueles que me encontram na porta do prédio ocasionalmente, além de ficar mais velho, vou parecendo mais velho. Vou virando - aceite, goste e entenda ou não - Senhor.

Continuo me olhando no espelho. "E agora, Maximilian?".

E agora nada. Que venham mais rugas, menos batimentos, menos cabelos, mais manias. Quem venham todas as cicatrizes, fundas e superficiais, retas e tortas, marcando a minha passagem pelo tempo. Nada errado com isso. Dentro do meio em que vivo - o meio do Esporte - conheço gente 20, 30 anos mais adiantada nessa passagem pelo tempo que eu, e que a despeito de todas as cicatrizes cronológicas estampadas na pele, continua vivenciando (não desafiando!) os limites fisiológicos de seus corpos. E mais, continuam sentindo-se como jovens de 18 anos, e vez por outra tem atitudes de crianças de 10. Nesses Senhores e Senhoras, a beleza adquiriu uma forma diferente, a velocidade embora menor continua espetacular, e a juventude fica evidente não nas formas, mas nas atitudes e na postura, tanto diante do espelho como da vida. São, todos eles que preenchem as categorias 50+, meus futuros ídolos e modelos.

A imagem no espelho continua me encarando. "Seu próximo presente de Natal será uma bengala", ela me diz.

Espere. Talvez ela esteja exagerando um pouco. Essa foi, afinal, a primeira vez que alguém me chamou de Senhor, ou pelo menos a primeira vez que eu escutei ser chamado assim. Além disso, meu nariz e minhas orelhas continuam de tamanho normal. Minha filha mais nova ainda é mais baixa que eu. Um determinado frentista, no meu posto de gasolina favorito, ainda me pergunta "quantos litros hoje, Garoto?". E manias, que eu tenha consciência, são poucas. Tudo bem que de "tio" eu não escapo mais de ser chamado pelos amigos dos meus filhos, mas a isso eu já me acostumei.

Me despeço da imagem no espelho (ou foi ela quem se despediu de mim?), e vou tomar meu banho. No dia em que a linha tênue que ainda une o Rapaz ao Senhor arrebentar, não tenho escolha quanto ao lado em que estarei. Mas no ínterim, vou fazer o possível para que quando isso acontecer - no dia em que, sem que eu saiba, o frentista tiver me chamado pela últma vez "Garoto" - eu já tenha aprendido a continuar sendo jovial, apesar de nunca mais voltar a ser jovem.

E aproveitando, três dicas para prolongar a sensação de juventude: faça cada vez menos perguntas ao seu espelho; evite conversar com Senhoras fumantes; e mais importante que tudo, ache um lugar qualquer onde alguém lhe chama de Garoto.

Esse texto é dedicado ao Rapaz André Nunes da Silveira, que aos 74 anos continua pedalando firme, e inspirando muita gente a viver melhor.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

20 MIL POR 3 MINUTOS

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"Eu preciso diminuir o meu tempo de pedal em 3 minutos pra pegar a vaga no IM do Hawaii. Tenho 20 mil reais disponíveis para investir em uma bike e par de rodas que me façam atingir esse objetivo".

Embora eu nunca tenha ouvido nada exatamente assim, essa frase resume várias outras, ouvidas com bastante freqüência. São quase que súplicas, de gente que leva o esporte muito a sério, treina duro, já tem equipamentos muito bons, e precisa de um pouco mais para conseguir pulverizar aqueles minutinhos que o (a) separam do Olimpo Havaiano.

Até algum tempo atrás, eu ouvia uma pergunta dessas e ficava coçando a cabeça, tentando encontrar um par de rodas um pouco melhor, um quadro um pouco mais aero, ou melhorar o fit do(a) atleta. E no final das contas, era obrigado a dizer que a menos que essa pessoa estivesse disposta a ARRISCAR seu dinheiro em uma solução alternativa, não havia nada que pudesse ser feito a nível de equipamento ou posicionamento para atingir o objetivo proposto - pelo menos não dentro de um contexto honesto.

Aí o atleta seguia adiante, satisfeito por não ter sido enrolado, mas ao mesmo tempo frustrado por ter encontrado uma resposta mas não uma solução. E eu continuava coçando a cabeça, pensando onde poderia estar essa solução. Se por um lado toda essa coçeira me deixou, literalmente, careca, a solucionática da problemática apareceu. E ela não estava no equipamento, que em 99% desses casos já é muito bom, nem na dedicação do atleta - ninguém chega a minutos de uma vaga para Kona cortando caminho em treinos.

Me parece que a maior parte, senão a totalidade dessa solução está no treinamento. E agora vem a parte que dói: o triatleta em geral não sabe pedalar. Desconhece a técnica, e acaba assim dissipando energia; não faz o devido aquecimento /desaquecimento, e fica sujeito à lesões; confunde força com potência (ou, pior, desconhece a importância de ambos), e acha que está pedalando quando na realidade faz passeio ciclístico; acha que o tamanho de pedivela ideal é 175mm, mesmo que tenha 1,60; valoriza muito a quantidade de quilômetros rodados, sem se preocupar com a qualidade do que é feito em cada quilômetro; acha que se o treino não tiver tiro não é treino, e acaba se desgastando prematuramente; e simplesmente ignora aquela coroa do lado de dentro, bem como a extremidade externa do cassete. Estupidez? Não. Falta de orientação.

De antemão, já aviso que não sou técnico de ninguém - não tenho competência nem conhecimento para tal. Mas tenho contato freqüente com técnicos e atletas, e tempo suficiente em cima de uma bicicleta, tanto em meio a triatletas como ciclistas, para olhar uma planilha de treinamento e saber se o conteúdo da mesma pode ou não transformar um grande empenho em alto desempenho. Via de regra a resposta é não. A maioria dessas planilhas é básica, e cumpre muito bem o papel de capacitar o triatleta a percorrer grandes distâncias exigindo um mínimo de recursos técnicos e fisiológicos, mas raramente o permite percorrer essa distância no menor tempo e com o menor consumo de energia possíveis.

Assim, se o intuito é pedalar com mais eficiência e tirar alguns minutos do tempo total de pedal, eu sugiro buscar uma assessoria ou um técnico cuja planilha de ciclismo tenha (mas não necessariamente se limite a)os seguintes ingredientes:

- técnica de pedalada: desde exercícios de perna isolada, passando por noções de posicionamento, até como sentar-se corretamente na bicicleta para não fica parecendo um João Bobo, balançando de um lado para o outro enquanto pedala;
- aquecimento e desaquecimento com giro leve: impressionante como em vários pelotões de triatletas, a largada do pedal já é feita em transmissão pesada (53x17 pra mais), e passo acelerado. É um tiro longo do começo ao fim. Depois as lesões aparecem, e ninguém sabe de onde vem...
- periodização que inclua etapas de volume com baixa intensidade, cadência alta, força, e finalmente potência, bem como noções do que cada um desses componentes produz a nível de resultado final;
- detalhamento das relações de transmissão a serem utilizadas (por ex: subida forte com 53x19, ou giro leve com 39x17). As nossas bikes tem normalmente 20 marchas, e é um desperdício usar somente 2 ou 3 delas - só que para usá-las, é necessário conhecê-las.
- sessões de pedal 4x por semana, podendo uma delas ser série de potência no rolo, com 1h de duração no máximo; 1 hora bem feita no rolo vale mais do que um passeio cicístico de 4horas, que é o que muitos acabam fazendo;
- noções de comportamento dentro do pelotão: aqui não se trata de rendimento, mas de segurança. Poucas coisas são mais perigosas que um pelotão de triatletas rodando a 40km por hora, sem noções de movimentação e posicionamento.
- utilização de cadência, frequência cardíaca e potência durante os treinos. O cruzamento entre esses dados é o referencial ideal; porém, se for optar por um somente, potência é o melhor.

Tenho certeza absoluta que com uma planilha de treinamento que inclua e aplique esses conteúdos (e outros, que um bom técnico conheça e eu desconheço), o objetivo de ir mais rápido no pedal será cumprido, e não somente por bem menos que 20 mil reais, como com um ganho de tempo muito, muito maior que 3 minutos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SOBRE SOPA DE ALGAS, SANDALIAS DE PALHA E MARATONAS

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Esqueça Maratonas. Esqueça IronMan. Esqueça Deca IronMan. Apague tudo, e vamos começar do zero novamente.

Nosso novo desafio de endurance começa às 2 da manhã de um dia qualquer. Você toma uma sopinha de arroz com algas, e sai para uma caminhada de 40km, em passo ritmado, ao longo de uma trilha. Vai de sandálias de palha, carregando um livrinho e independente das condições de temperatura. Tudo bem até aqui? Eu sei que sim....afinal somos atletas de endurance.

Ok, então vamos em frente. No dia seguine, repete-se o mesmo ritual. Idem para depois do dia seguinte, e depois, e depois. Que tal uma semana fazendo essa caminhada diária de 40km, de sandálias de palha, na base da sopinha de algas, e bolinhos de arroz? Talvez para alguns já tenha começado a perder a graça.

Que tal agora um mês, direto, sem perder nenhum dia? Que tal Cem Dias? Que tal Cem Dias durante Três Anos consecutivos? Acho que nesse ponto bem poucos, se é que alguém, estaria interessado.

Que pena...é justamente agora que começa a ficar bom.

No quarto ano, são 40 km todos os dias por 200 dias. Chova, neve ou faça sol ou acabe o mundo. De sandálias de palha (são feitas cerca de 80 para os 100 dias), na base do bolinho de arroz. E da sopa de alga, é claro.

No quinto ano, a mesma coisa. No sexto, 60km por dia, durante 100 dias; e para comemorar os 700 dias de caminhadas, um jejum festivo de 9 dias: neca de comida, água, sono ou descanso durante esse período. O objetivo não poderia ser mais óbvio - encontrar a morte e se possível sobreviver a ela. Dizem que nesse período a sensibilidade fica tão aguçada que é possível ouvir as cinzas do incenso caindo no chão, e (pudera), sentir o cheiro de comida a quilômetros de distância.

No sétimo e último ano, 84km por dia durante 100 dias, seguidos de 40km por dia durante 100 dias.

Agora sim, acabou (e pra quem tem olho clínico, dá pra ver que tem uma periodização interessante incluída nesse programa, com direito a período de base, pegada forte, e recuperação!).

Mas não se acanhe se você jogou a toalha lá no começo, antes de acabar a primeira semana. Segundo informações oficiais, desde 1885, apenas 46 indivíduos realizaram esse programa até o fim.

Atletas? Nenhum, que eu saiba. Eram todos monges, conhecidos como Kaihogyo - Os Monges Maratonistas do Monte Hiei.

Eu soube de ao menos um atleta de nível profissional que tentou acompanhar algum monge em suas caminhadas. Não durou uma semana, pois o problema não é o ritmo, mas o desgaste físico de repetir o exercício durante tanto tempo ininterruptamente. E o interessante é que do ponto de vista fisiológico, embora eles queimem mais calorias do que ingerem, não perdem peso. Como? Mind over Matter!

Trouxe o assunto aqui não na esperança, ou mesmo intenção, de despertar o quadragésimo sétimo monge enrustido em algum leitor. Mas deixo sim como prova incontestável de duas coisas muito importantes:

- o corpo humano é uma máquina fantástica. Mágica. E dentro de uma abordagem correta, é capaz de levar os nossos desejos muito, muito longe, sem a necessidade de suplementos, aditivos, e outras porcarias que nos são empurrados goela abaixo e mente adentro;

- o que importa mesmo não é a distância percorrida, ou a velocidade com que essa distância é percorrida. O que importa é quantas vezes seremos capazes de percorrer um mesmo caminho, uma mesma distância, nos realizando na Caminhada em si, e não sonhando com a Chegada.

Links sobre o assunto:

http://www.lehigh.edu/~dmd1/holly.html (texto)
http://www.der.org/films/marathon-monks.html (filme)

Há também um livro - The Marathon Monks of Mount Hiei - por Jonh Stevens.

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