
Obs. esse texto não é um causo em si. Ele é uma introdução ao local que serviu de palco para o Maior Causo dos madrugadores, a ser publicado na sequência, bem como do tipo de gente que freqüentava esse local.
O Bestiário era, para nós, Solo Sagrado. Nas catacumbas da Escola de Natação Amaral, em nossa caverna azulejada, deixávamos para trás o Homo Sapiens, e descíamos (ou subíamos, dependendo do ponto de vista) alguns degraus na escala de evolução. Era ali, em meio à neblina dos chuveiros, que recuperávamos nossas forças sob a água quente - contando piadas, descobrindo pecadilhos e pecadíssimos, subornando os pecadores (um belo café da manhã em Hotel de luxo depois do treino era suficiente) e resolvendo todos os problemas antigos do mundo - pois às 7 da manhã, ainda não haviam saído do forno os problemas novos.
Ao longo dos anos, os mitos em torno do Bestiário foram criando corpo, e nasceu um Código de Conduta. Esse Código, que começou com alguns itens e terminou com mais de Cem, deixava bem claro qual era o comportamento esperado dentro daquele recinto. Eu tentei localizar exemplares perdidos desse Código (alguns foram impressos), mas nem uma página sequer apareceu. O veneno do conteúdo deve ter desintegrado todas.
Como ele era composto basicamente de Coisas Proibidas dentro do Bestiário, e eu fiz parte do Comitê que elaborou o dito cujo, me recordo de alguns itens:
Proibido Chinelos de qualquer espécie;
Proibido Creme de barba e barbeador; fazer a barba, só com navalha;
Proibido Roupão, mesmo no inverno;
Cueca, só branca;
Pentear-se, somente com a mão;
Proibido olhar-se no espelho por mais de 5 segundos;
Os seguintes itens e comportamentos implicavam em expulsão sumária:
- Creme de pele;
- Pantufa;
- Perfume;
- Cueca de qualquer cor que não fosse branca;
- Mocassim;
- Gel para o cabelo;
- Secador de Cabelos;
- Escova de cabelos (pentes eram tolerados)
- Olhar para um outro Madrugador pelado por mais de 2 segundos (um segundo basta pra reconheçer, e outro pra cumprimentar)
Essa é uma amostra pequena, mas creio que dá o tom.
O mais importante, entretanto, era observar o que não estava escrito em lugar nenhum: naquele lugar, as paredes tinham ouvidos, as janelas tinham olhos, e o chão tinha memória fotográfica. Portanto, tudo o que fosse dito e feito - principalmente de errado - seria lembrado, e cedo ou tarde o preço pelo descuido teria que ser pago pelo Descuidado.
Embora hoje o Bestiário como ele foi concebido exista somente na memória de alguns, as coisas feitas e ditas na época continuarão sendo lembradas, tanto pelas paredes, janelas e pelo chão, como pelos membros - para sempre. Um dos seguidores desse blog, fundador e membro do mais alto grau da Irmandade do Bestiário, que me corrija se eu estiver errado.
m.





