
O lugar mais alto do podium, em qualquer esporte, é um território cobiçado por muitos, visitado por alguns, e habitado por pouquíssimos. Frequentemente me pergunto o que separa os pouquíssimos dos outros. O que define aqueles cujo nome tornou-se sinônimo do esporte que praticam, e para quem Vencer tornou-se quase uma rotina? De onde vem, e como se chama, esse combustível que faz com que tenham forças para chegar ao topo tantas e tantas vezes?
Existe o Treino, existe a Genética favorável; existe a Ciência para o treinamento, e a Tecnologia para os equipamentos; e há toda uma gama menor de outros fatores tangíveis. Mas se olharmos para uma prova como o Tour de France, me parece que todos ali são donos da camisa número 1 em tempo integral. São campeões nacionais, olímpicos e mesmo mundiais competindo entre si. Todos treinam muito, tem genética favorável, e um aparato técnico e científico que potencializa suas capacidades natas e desenvolve as inatas. E mesmo assim emerge ano após ano somente um Vencedor. E isso tanto no ciclismo como em outros esportes - Eddie Mercx, Lance Armstrong, Alexander Popov, Boris Becker, Dave Scott, Usain Bolt e colegas da mesma estirpe são a prova cabal. Dependendo do ponto de vista eles são bons ou maus, heróis ou anti-heróis, bandidos ou mocinhos. Inquestionável mesmo somente a relação duradoura de cada um deles com a vitória.
Até pouco tempo atrás achei que ser "Mau" era parte da essência desses grandes vencedores - não Mau como sendo "do mal" mas como em "Bad Boy". Achei que todo o Campeão é um Bad Boy capaz de canalizar e aplicar na hora certa doses de Raiva e Agressividade para pulverizar seus adversários. Mas hoje não acredito que seja essa a definição correta, embora Raiva e Agressividade se usadas na hora e na maneira certa podem certamente fazer a diferença. O que acontece é que a lista de exemplos de Vencedores aos quais seria injusto aplicar esse rótulo de Bad Boy é extensa demais para mencionar aqui - assim como é extensa a dos que mereceriam o rótulo sem mais. Portanto "Mau" não poderia ser usado livremente sem que fossem cometidas injustiças, equívocos e exageros.
Certamente, "Bonzinho" muito menos. Já passei por vários esportes, e ainda não conheci nenhum - nem meio - campeão que seja bonzinho. Eles podem ser simpáticos e cordiais até o início da prova, quando rapidamente transformam-se em seres cujo foco único é vencer - amizade, bondade e considerações secundárias varridas para um plano distante. E passei a acreditar então que o Grande Vencedor transcende o bem e o mal. Ele é ambos ao mesmo tempo, e nenhum dos dois em alguns momentos. Ele é, na falta de outro termo melhor, Implacável.
Isso significa que em instantes cruciais - aqueles em que a genética e os treinos e a ciência deixam tudo praticamente igual - algo acontece dentro do Vencedor, e só dentro dele. Não é uma fagulha que se acende, nem uma decisão racional de fazer alguma coisa - é uma combustão espontânea interna, um impulso visceral que faz com que ele aja enquanto os outros ficam pensando no que fazer. O Vencedor é Implacável porque entre ele e o podium não existem palavras nem pensamentos nem argumentos, nem mesmo uma vontade consciente. Existe apenas uma ligação profunda que precisa ser renovada, um espaço vazio a ser preenchido. E o impulso que o leva a preencher esse espaço e a renovar essa ligação, embora não esteja além da honestidade e da ética, certamente está acima da amizade, do perdão, da análise ponderada e de outras características inerentes aos diplomatas, aos religiosos, servidores sociais e, em graus bem menores, aos demais atletas, do segundo até o último colocado.
Ser Implacável, falando a língua do nosso país, significa que quando estamos diante do gol e percebemos que será necessário usar a mão para fazer a bola entrar, simplesmente usamos a mão. As consequências, naquele momento, são imateriais. O artilheiro nato não pensa "Ai meu deus o que eu faço agora...será que é lícito fazer isso....será que isso é pecado...será que o juiz vai me expulsar....". Ele põe a mão na bola (com aquele talento que a genética lhe deu), ajeita com o pé, manda pro fundo da rede, e pronto. Depois ele acorda do transe e vê no que deu.
Na mesma linha, significa também que se um ciclista está disputando palmo a palmo a liderança da prova de ciclismo mais prestigiosa do mundo com um rival que acaba de atacar bem na sua frente montanha acima, e de repente esse mesmo rival para de pedalar por qualquer motivo - enquanto outros dois adversários vão em frente - ele não pensa, ele Age. Aquele impulso visceral faz com que ele continue respondendo ao ataque inicial, não porque o seu adversário parou de pedalar, mas porque os outros dois estão indo embora, e porque aquela distância entre ele e o podium precisa ser preenchida, e esse é um dos momentos cruciais para que isso aconteça. Isso não é ser covarde, nem mau, nem anti-ético, e está longe de ser bondoso, caridoso, considerado ou amigável. Isso é ser implacável.
E tem mais. Vencer algumas vezes redunda em orgulho de si e da medalha no peito. Vencer várias vezes redunda em orgulho de si e pessoas orgulhosas de você e da medalha no seu peito. Vencer constantemente implica nos anteriores acrescidos a uma legião de perseguidores dispostos a arrancar a sua medalha e abafar o seu orgulho na primeira chance. A medalha pendurada no peito passa a pesar menos que o alvo pintado nas costas. E para levar a vida com um alvo nas costas, bondade, ponderação e consideração não servem de muita coisa.
Refletir sobre esses homens e mulheres implacáveis me ensinou, entre outras coisas, que eu jamais seria um deles. Me faltam elementos demais, tanto tangíveis como intangíveis. E por isso mesmo esses campeões me fascinam - nas atitudes, e sobretudo no olhar.
A quem defina esse olhar como o olhar de Medusa, que petrificava as vítimas. Para mim é diferente. Esses campeões são montanhas de gelo que abrigam um fogo intenso, e seus oponentes serão derrotados pelo frio, ou pelo calor, ou por ambos. E quem viu Popov intimidando seus adversários no vestiário, ou Lance Armstrong encarando seus adversários na estrada, sabe o poder desse olhar. E quem viu Luis Fabiano fazendo o gol de mão na última copa, ou o ataque de Contador a Schleck, sabe o poder dessas atitudes. São olhares e atitudes de indivíduos frios consumidos por um fogo imenso. E tentar julgar essas atitudes durante a intensidade de uma competição seria como julgar o próprio frio, ou o próprio calor, por congelarem ou queimarem aqueles que deles se aproximam.
Moral da História: um mesmo indivíduo que validar moralmente o gol de mão de Luis Fabiano e condenar a atitude de Contador talvez deva passar mais tempo junto ao gelo e ao fogo.
Max, uma aula de como escrver um texto argumentativo ... começou cativando o leitor, traçando comparações lógicas pra só então entrar no tema mais polêmico dos últimos dias !!! hehehe
ResponderExcluirParabéns !!
Victor Cortez
Eu ia colocar um palavrão bem pesado pra expressar o quanto "duca" foi esse texto, mas mesmo assim ia ficar longe (além de ficar feio).
ResponderExcluirSENSACIONAL!
Parabéns e obrigado!
LODD
Sabe que eu não tenho uma opinião formada sobre esse assunto?
ResponderExcluirNão sei se fico do lado do dizer: Ele foi errado de atacar enquanto o cara tava com problemas.
Ou
Ficar do lado do dizer: Ele precisa seguir a etiqueta do Tour.
Não sei.
Acho que como em Wimbledon que o senhor Nadal foi meio que obrigado a jogar de branco e engomado, ao invés das roupas coloridas e cabelo em pé... pois lá precisa de certo modos....
acho que no Tour vc já é avisado antes sobre esses acordos de cavalheiros (fora das regras),
sobre essa etiqueta de esperar quando o camisa amarela estiver com problemas e bla, bla, bla, bla.
Se vc quiser entrar na prova sob estas "regras", blz... se não vai procurar outro Tour.
Sei lá.
Essa prova é muito grande, rola muita grana, e muita política.
Como em Wimbledon, fica complicado sair fora de algumas linhas.
Mas em uma prova normal, acho que deve meter o pau e atacar em qualquer circunstancia
Faço das palavras do Lodd as minhas.
ResponderExcluirSempre tento me colocar no lugar do outro, então se Schleck estivesse no lugar do Contador, acho que ele faria o mesmo.
Muita gente fala isso ou aquilo, mas na hora da ação fariam o mesmo o que o Contador fez.
Abraço
O essencial é ter critério. Se a mesma pessoa aplaude o gol de mão do Luis Fabiano e condena o Shcleck, pra mim não tem critério. O julgamento em si - culpado ou inocente - é secundário. Eu ando meio de saco cheio dos papagaios que ficam repetindo opiniões alheias, ou mesmo expressando as suas, sem refletir sobre o que estão falando....
ResponderExcluirResgatando uma lembrança da época da faculdade, me ocorreu a clássica frase do Maquiavel -
ResponderExcluir"os fins justificam os meios"...o bom ou mau....o vencedor ou perdedor...
Será que o fim será maior que os meios utilizados? ou o fim sofrerá um detrimento em relação aos meios utilizados?
quem sabe? eu não sei!!!
A repercussão do que aconteceu talvez tenha sido muito maior que a importância do que propriamente aconteceu.
Abraço
Aproveitando o gancho, se nao fosse o tao falado episodio da corrente, esse teria sido o tour mais "morno" dos ultimos 12 anos (desde que eu acompanho). Aquela etapa de hoje deu sono, e MUITA saudade de Marco Pantani, o cara que batia e atacava ate se acabar ou acabar com os outros.
ResponderExcluirAndy Schleck correu pelo 2o lugar, e isso nao eh o que se espera de um campeao. Escrevi no blog do Bruno e repito aqui: O Tour em VHS era muito melhor que a edicao em DVD!
LODD
Belíssimo texto!
ResponderExcluirMax, o implacável!!!
ResponderExcluirMax, primeiramente parabéns pelo texto. Entendi o argumento sobre os vencedores implacáveis, porém, acredito que no fundo esses vencedores possuem uma reserva moral, uma certa limitação que não os deixa fazer de tudo em nome da tão sonhada vitória. Sim, o artilheiro vai tentar por a mão na bola pra fazer o gol, mas vai tentar fazê-lo de maneira que o juiz não veja ele não vai dar uma "cortada" na bola, o nadador vai tentar ganhar sem uso de nenhuma substância ou roupa que lhe dê vantagem a não ser que seja lícito, caso contrário nadariam de palmar ou nadadeiras(existem prêmios para os nadadores que fizerem tempos sem o uso da roupa atualmente). Penso que os vencedores são sim implacáveis, mas possuem uma reseva de dignidade (podem chamar de ética) que faz com que não almejem a vitória a "qualquer custo".
ResponderExcluirAbraço e parabéns novamente.
Fernando,
ResponderExcluirImplacável sim, mas sempre dentro de critérios éticos. Senão, ao menos no meu entender, não seriam sequer vencedores para começar. E é justamente por isso que os Grandes são tão raros.
abraço,
Max