quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Road? Tri? TT? Nda (Parte I)
Na medida em que o tempo passa e ficamos envolvidos com um determinado assunto certas verdades vão emergindo. Se essas são absolutas ou relativas cabe ao tempo e à experiência alheia determinar. O fato é que depois de alguns anos na lida teórica e prática das bicicletas ditas "de alta performance", e em especial das específicas para o triatlon, mais e mais eu me convenço de que há algo a ser melhorado na maneira pela qual esses equipamentos são explicados, vendidos e sobretudo utilizados pelo público amador em geral.
Hoje, o triatleta amador dedicado, e notadamente aquele focado em provas sem vácuo e mais longas, é levado a entender, sem mais, que o melhor equipamento disponível para ele é a dita "bicicleta de triatlon", ou tri bike. As justificativas para isso vão das plausíveis (a geometria oferece melhores condições de posicionamento aerodinâmico), passando pelas questionáveis (a geometria favorece uma corrida melhor), até as estapafúrdias (a posição no clip é a mais confortável). De qualquer maneira, um atleta sensato e criterioso que deseje comprar uma bicicleta nova para fazer, digamos, seu 70.3 ou seu IM, não teria que pensar duas vezes antes de ser convencido pela literatura ou por algum vendedor/colega entendido que a sua melhor opção é uma TT/Tri.
Pois eu digo hoje, com muita segurança, que não é, ou pelo menos não é mais. Isso pode ter sido verdade da época das primeiras Quintana Roo até uns três anos atrás, mas hoje em dia - com a profusão de marcas, acessórios e configurações - eu vejo espaço para uma nova opção, intermediária entre o que chamamos de bicicleta tradicional de ciclismo e a bicicleta tradicional de triatlon. E para explicar isso um pouco melhor, nada mais justo que começar pelas definições.
A bicicleta de ciclismo tradicional é aquela sem clip, com tubos "não aero", head tube mais alto, seat tube mais recuado. Tipo Caloi 10 mesmo. Essa não é a resposta ideal para as provas mencionadas acima, principalmente as planas e semi-planas, por não favorecer, nem na forma nem na geometria, o deslocamento contra o vento sem o benefício do vácuo.
Já a bicicleta de triatlon tradicional é essencialmente a mesma bicicleta usada em provas de contra-relógio no ciclismo: clip, tubos aero, head tube mais baixo, seat tube mais avançado. É uma boa solução para provas sem vácuo - exceto as com longas escaladas e descidas sinuosas - por favorecer, tanto na forma como na geometria, o deslocamento contra o vento sem o benefício do vácuo. Porém.....
Pois é. Tem um porém, que para mim é um imenso porém, no fato de que Triatlon e Contra-Relógio, embora utilizem equipamentos semelhantes, são dois esportes totalmente diferentes. No Contra-Relógio, as distâncias em geral não passam de 50km - ou uma hora de esforço contínuo em limiar de potência para um atleta profissional - e costumam ficar na casa dos 7 a 20km na maioria das vezes. Como conseqüência, o ritmo imprimido é intenso - o atleta pedala beirando o vermelho o tempo todo, e não sai do clip a não ser em subidas ou curvas justamente para ter uma economia de Watts. Aqui a aerodinâmica tem um impacto considerável, haja visto que esse tipo de prova pode ser decidida em segundos; de maneira complementar, o conforto passa a ser secundário, já que desconforto de dez, quinze ou vinte minutos normalmente é tolerado e assimilado por atletas bem treinados. Resumidamente, o TT é uma modalidade de ciclismo que demanda esforços relativamente curtos porém intensos.
O (ciclismo no) triatlon de longa distância, por sua vez, implica na manutenção de um ritmo de esforço que, em números redondos, vai ficar na casa dos 75% do limiar de potência do atleta, por períodos que variam de 4 a 8 horas, dependendo da prova e do nível de condicionamento. O ritmo imprimido aqui, embora possa até ser classificado como forte em alguns casos, é longe do que seria o chamado "andar no rebite" - dar o máximo de si, ou extrair o máximo do equipamento, ou andar no vermelho. Em contrapartida, como trata-se de longas distâncias, o conforto é prioridade absoluta - e quanto menor o volume mensal de horas no selim, tanto mais prioritário deve ser esse conforto. Está, dentro do ciclismo, mais para prova de resistência do que de velocidade. Sem falar que é necessário correr depois.....
Seguindo esse raciocínio, e entrando no campo prático, uma pergunta: qual a situação de maior conforto em uma bicicleta de TT/Tri: girando leve e olhando a paisagem, tipo aquecimento ou desaquecimento, com as mãos no guidão e 39x19, ou andando no rebite, babando no clip, 53x15 e pedindo mais? Se alguém tem como resposta a primeira hipótese, por favor se manifeste. Até hoje, não conheci seja ciclista ou triatleta que não se sinta "espetado" pelo selim e pelo guidão ao andar em ritmo lento nessas bikes. Pudera. Elas não foram feitas para isso. E a primeira conclusão que emerge (para mim) a partir desse raciocínio é que toda a vez que o atleta usando uma tri bike estiver segurando no guidão ao invés do clip, ele já estaria melhor usando um outro tipo de bike. A decisão entre qual usar, nesse caso, depende do tempo em que ele ficar no clip ou no guidão. Pessoalmente, creio que quem faz um IronMan com uma tri bike e fica menos de 80% do tempo total de pedal no clip já está com a bike errada.
Segunda das minhas conclusões: para o atleta que faz o seu IronMan ou 70.3 pedalando de maneira conservadora (digamos, menos de 140 Watts de potência média ao longo do percurso), usar uma tri bike será extremamente desconfortável seja no clip ou fora dele, e a partir daí qualquer benefício aerodinâmico eventualmente advindo desse equipamento passa a ser, no mínimo, questionável. E, já que tocamos no ponto "aerodinâmica", não custa lembrar que o quadro mais aero do mundo depois de envenenado (leia-se intoxicado mesmo, não melhorado) com um aerodrink, um par de caramanholas atrás do selim, 5 saches de gel presos com fita crepe no top tube, placa com o número do atleta presa (torta) no canote do selim, pneu tubular embaixo do selim - entre outros - tem tanta eficácia quanto a Caloi Ceci da minha mãe com uma cesta de flores na frente. Com roda aero ou sem.
O resumo da ópera, nesse ponto: fazer uma prova de triatlon sem vácuo, em distâncias 70.3 ou IM, utilizando bicicletas contra-relógio, é justificável se:
- o atleta vai brigar pela vaga para o mundial (e portanto vai andar forte o tempo todo);
- o atleta quer melhorar seu tempo, e tem volume de treino de ciclismo que o permita passar pelo menos 80% do tempo no clip, pedalando forte o tempo todo;
- o atleta tem esse tipo de prova como estilo de vida, já fez várias e fará várias outras, já passou pelo estágio de usar bicicleta tradicional, e chegou a conclusão - por experiência própria e não alheia - que a tri bike é a melhor opção para ele;
Tem ainda "para sair bem na foto", ou "porque eu li no site do fabricante", mas no contexto presente isso não conta. Ou, se contar, é contra e não em favor.
Calculo que somados esses tipos de atleta, temos uns 50% do total de inscritos em qualquer prova. Do grupo restante - os novatos, os curiosos, os sem grandes pretensões - aqueles que escolheram a bicicleta "específica" fizeram a escolha menos adequada.
E encerro essa primeira parte me atrevendo a dizer o seguinte: não é a escolha errada "na minha opinião". É a escolha errada, ponto final. Em 312 textos anteriores eu nunca fui tão categórico, mas nesse assunto me sinto totalmente à vontade para adotar um posicionamento mais radical. Essa, se for uma briga, eu compro sem pedir desconto e pagando à vista.
Na parte II: qual é a solução ideal então para esses outros 50%.
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Max, simplesmente sensacional.
ResponderExcluirEu venho pensando sobre isso há um tempo, lendo aqui e ali. Muito aqui no seu blog e ali no Lodd e em outros.
Eu questiono muito uso dessas bikes, pq o cara tem que saber usar.
Acho que o triatlo deve ser um dos poucos esportes em que o cara que gasta dinheiro a toa não é mané.
Ah, gostei disso: "tem tanta eficácia quanto a Caloi Ceci da minha mãe com uma cesta de flores na frente. Com roda aero ou sem."
Gostei gostei....isto pq vc so falou da bike...lembrei tb daquele capacete aero que eh para ser usado reto e o atleta pedala olhando para o fotografo, para a mae, para o periquito e faz mais arrasto que aerodinamica....abraço
ResponderExcluirIpsis Litteris...
ResponderExcluirE acrescento: Dada as circunstâncias que 99,9% das provas de longa distância ocorrem hoje no mundo (leia-se vácuo liberado e indescriminado) 90% dos atletas estariam melhor servidos com uma bike tipo as AR (Felt) ou S (Cervélo).
O problema é que o universo desses 10% restantes ainda formam o senso coletivo e mandam nas opiniões (been there)
LODD
O melhor post que já li na vida, parabéns!!
ResponderExcluirMax,
ResponderExcluirComo sempre, excelente post.
Apanhei muito, principalmente no meu primeiro Iron, para me acostumar com uma Bike TT.
Se tivesse tivesse utilizado uma bike “comum”, evidentemente bem ajustada, é muito provável que teria feito uma etapa de ciclismo melhor e ainda como bônus tivesse saído para correr menos travado.
Hoje, indo para meu quarto Iron consecutivo posso dizer que estou adaptado a esse tipo de bike, tendo ainda muito que evoluir.
Max, se me permite, fiz uma cópia deste texto para lê-lo toda vez que babar por uma bike TT e pensar em me desfazer da minha road...
ResponderExcluirAbraço e bons treinos!!!
Marcelo, ótima ideía.
ResponderExcluirEu li em uma revista de bikes, acho que na bike action, que o mercado de bikes de mtb não evoluiu por causa dos atletas profissionais e sim por causa dos compradores.
Depois dessa eu fiquei bem cabreiro e agora esse do max aqui fechou a conta.
Ops, fechou não. Vamos ver a parte II.
E sem dizer que mesmo que a pessoa não seja apta a usar uma TT por todos os motivos que vc citou . . . ainda tem o problema da super população nas provas de Ironman, onde se vc não nadar pra baixo de 1h obrigatoriamente, vai andar o tempo todo com gente ao seu lado.
ResponderExcluirAí uma road com clipe é bem mais negócio.
Parabens mais uma vez,
ResponderExcluirCada vez que voce aborda um tema, todos nós caímos na real por em algum momento já ter pensado nisso e não acreditar que talvez tivessemos certo, uma vez comentei com um amigo porque gastar um grana alta numa TT se vou andar a 36, 37 para me poupar para correr e acabo o pedal totalmente quebrado, isso andando no clip.O Instinto as vezes fala mais alto mais não ouvimos.
Estou sentindo essa questão de andar em ritmo lento. Troquei a speed por uma TT a pouco mais de um mês. Estou fazendo os treinos de base e sinto a TT muito instável andando lento. É difícil segurar a bichinha. Estava com o selim na posição 78º e estou com dificuldade de me adaptar. Resolvi recuar o selim para a posição 73º para ver se me sinto melhor.
ResponderExcluirAndre,
ResponderExcluira questão não tem a ver somente com angulação. É todo um conjunto de fatores. Se vc. recuar o selim e mantiver o mesmo drop, vai ter dificuldade em respirar, e por aí afora.
Oi Max, acho que o problema transcende a questão "qual a bike ideal para mim?". Vc acha que as pessoas que moram em SP ou RJ, grandes centros urbanos com problemas de espaço, precisam daquelas Vans enormes que normalmente tem uma pessoa dentro? Um casal com um filho precisa de um mega apartamento de 350m2 com 3 suítes? Sem falar em roupas, relógios, celulares, e qualquer item de consumo. É o consumo pelo consumo. Não há necessidade real em quase nada do que usamos no nosso dia a dia. Apenas valores que publicitários criam em nossas cabeças...Desejo pelo desejo, sensação de poder, satisfazer o ego pelo consumo...Acho que o papo transcende muito "as bikes", como toda a razão que tem.
ResponderExcluirAbraço
Max, so fui comprar minha TT depois de muitos anos de triathlon. E mesmo assim apanhei como um cachorro pra adaptar. Estas bikes sao muito sensiveis a mudancas de posicionamento. Mudou uma peca, pronto ate o corpo encaixar novamente da-lhe sofrimento. Vejo alguns amigos que comecam no triathlon e pegam logo uma TT. O cara fica todo empenado em cima da bike mas nao quer ficar fora da onda. Eh um movimento semelhante de quem comeca a praticar e vai logo pro iron, sem viver as experiencias e sensacoes que as outras distancias podem oferecer. Bom, nem preciso dizer que tu arrebentou em mais um post! E ae, quando sai a parte II?? Ah ah ah
ResponderExcluirAbs
Ontem cheguei em casa e dei de cara com uma matéria na última edição da TriSport, escrita pelo Marcus Ornellas sobre uma bike.
ResponderExcluirDo meu ponto de vista as opiniões convergem para o mesmo caminho. Trata-se da Look 576 E-POST, uma bike híbrida que tanto se ajusta como Road quanto TT.
Boa Max, isso fica bem claro quando vemos triatletas medianos , como eu, passando bikes que deveria fazer seus donos andarem entre os primeiros.....
ResponderExcluirAbrax.