quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sobre Poodles e Homens


John Steinbeck, que eu saiba, nunca foi ciclista ou atleta. Ficou famoso como escritor,  especialmente pelo clássico Of Mice and Men (algo como Sobre Ratos e Homens). Li o livro alguns anos atrás mais por curiosidade que interesse genuíno, e embora tenha ido até o fim não gostei a ponto de ler novamente.    Mas hoje cedo, depois de chegar do pedal matutino, verificar o estado dos meus dedos dos pés e ponderar sobre o porquê de certas coisas, não pude deixar de lembrar de John, seus ratos e seus homens. 

Talvez, me permiti divagar, se John Steinbeck tivesse sido ciclista e olhasse para a sola dos seus pés como eu fiz hoje de manhã, ele poderia ter escrito um livro um pouco diferente, com um título um pouco diferente. Ao invés de Of Mice and Men, que contrapõe a força e a fraqueza moral da natureza humana, ele poderia ter escrito Of Poodles and Men, explorando uma outra vertente não menos interessante da nossa espécie.

O Poodle é essencialmente um cão doméstico, e mesmo quem nunca teve um percebe isso na hora ao olhar para ele. Fica difícil imaginar um Poodle Retriever mergulhando em um lago gelado, um Poodle Shepherd comandando o rebanho, ou ainda um Poodle Husky passeando pelo gelo. Mesmo assim, uma coisa ninguém tira do Poodle: ele é tão descendente do Canis Lupus como o Pastor Alemão, o Golden Retriever e o Husky Siberiano. 

O que tornou cada um desses cães aquilo que é hoje - pequeno ou grande, forte ou frágil, com pelo ou sem pelo, manso ou feroz - foi um processo adaptativo às condições ambientais. Assim, de maneira simplificada porém verdadeira, o Poodle é um lobo que foi convertido ao ambiente doméstico. Perdeu as presas, ficou menor, menos selvagem. Trocou a vida ao ar livre pela vida ao ar condicionado, a toca pelo apartamento, a carne crua pela carne enlatada, o banho de chuva pelo banho e tosa, e ao invés de afiar as unhas trotando pelas pedras vai ao veterinário (ou à manicure) para cortá-las. Nessa troca, se ele sai ganhando ou perdendo, jamais saberemos. O que importa é que os Poodles sempre me pareceram, senão felizes, ao menos conformados. 

Não é necessário usar muito a imaginação para perceber que a trajetória do Poodle é também a nossa trajetória. Fizemos as mesmas trocas, aceitamos os ganhos, convivemos com as perdas. Deixamos de ser Homens das Cavernas para virar, sim, Homens-Poodle. A diferença é que alguns são conformados, ou pelo menos anestesiados. Outros não. 

Não sei o que pensam os conformados/anestesiados, e não invejo seus motivos - embora respeite sua opção. Quanto aos demais, bem, esses eu conheço um pouco melhor. Alguma coisa - vamos chamar de inconformismo - os arranca da cama nas horas mais impróprias, sob as temperaturas mais improváveis. Deixando seus abrigos, eles (re)encontram no céu aberto o seu templo, no vento seu mantra, num certo sofrimento sua redenção. São atletas, montanhistas, mergulhadores, exploradores - inconformados mansos, rebeldes amadores, ateus do sistema, fiéis do no pain, no gain.  Para todos esses, o que mantém o sentido da vida do Poodle não vem da cama feita, do ar condicionado, da carne picada e esterelizada ou da voltinha pela quadra. Vem da busca diária da conexão com o Lobo. 

Hoje, depois do treino matutino - duas horas e pouco comungando com o frio (muito), o vento (mais ainda), e as dores pequenas e grandes da minha redenção, pisei no chão e não senti nada. Todos os dedos dos dois pés estavam amortecidos, branquinhos. Olhei para aqueles dedos brancos e sorri, confiante de que  não são sinais de estupidez, insanidade e muito menos tempo perdido. São as marcas diárias da minha religação (que não por acaso tem a ver com religião). 

Por tudo isso, se Steinbeck fosse atleta e mesmo assim não escrevesse Of Poodles and Men, deixaria aberto um belo espaço para que ao menos alguma coisa fosse dita sobre os pés imaculados daqueles que se renderam, e os calos, bolhas e dedos brancos dos que continuam vivendo. 
















10 comentários:

  1. Max,
    Que analogia espetacular!!!
    Acredito que a tendência natural do ser humano é o comodismo... "Para que dificultar se podemos facilitar?" Na verdade, é fácil viver de forma "domesticada"... É confortável... Viver dentro dos padrões... do senso comum.
    Felicidade? É um conceito complexo demais p/ entrar em questão...
    Para nós, que temos orgulho das nossas bolhas nos pés ou de voltar de um pedal com praticamente hipotermia... Cada um por seu próprio motivo.. Sua própria motivação... Somos "taxados" como doentes pelas pessoas... Poodles domesticados conformados... Porém, é o que faz sentido p/ nós!
    Acho q todos temos momentos na vida de questionamentos... que inclusive passamos por essa "catigoria"de Poodles ... Sem perceber...
    Por isso, cada vez fica mais claro p/ mim que não existe certo e errado... Mas, sim o que faz ou o que não faz sentido para você em determinado momento da vida!
    Obrigada!

    Abs,

    Aninha!

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  2. É por isso que eu gosto do seu blog.

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  3. Tchê barbaridade, tá loco...
    O post é bem lindaço mas a foto pelo amor dos meu filhinhos, troço feio como como briga de foice no escuro, vou te dizer um troço e no tal "manto sudário" tinha a imagem do "homi", vou te dizer (é até um sacrilégio falar isto) no teu dedão têm uma imagem ali loco, meio engraçado como gorda colocando as calça, mas também pudera com estes dedos encordoados como teta de porca não teria como ser diferente!Têm um que tá branco como coxa de padre, vai ver que era o mais apertado dentro da sapatilha, pela cor tava aperdado que rato em guampa!

    Pois tchê Max me desculpa o escrevinhado, mas esta foto ficará gravada nos "anais" das internte - apesar que nem sei o que é tal dos "anais", mas como diz o ditado:
    -Se vão os anais e ficam os dedos...
    hahahahahhaha dedos entendeu....hahahah

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  4. Deco,

    na verdade, eu tentei desenhar um rosto sorridente no dedão, mas o dedo tava tão murcho e úmido que a tinta não pegou :-)

    O branco é falta de circulação mesmo. O pé tava geladaço. Ainda bem que rolou uma ducha bem quente depois da foto, senão a coisa ia ficar feia.

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  5. Sensacional, Max! Muito bom!!!
    Sou obrigado a dizer também que me matei de rir com o texto do Deco...kkkkk
    Abraço!

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  6. Post sensacional.... parabéns meu caro.... que me leva a refletir, questionar... mas ao mesmo tempo constatar... que estou no caminho certo, pelo menos nos motivos que me levam a treinar todos os dias, faça chuva ou faça sol.

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  7. Max, aquele dedo branco pode ser um fato isolado devido ao frio mesmo, mas fique atento se isso volta a acontecer em dias frios quando está trabalhando em um local frio...já ouviu falar em doença ou fenômeno de Raynaud? De uma pesquisada. Até.

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  8. Max, sou seu fã!
    Meus amigos também acompanham seu blog, através da minha indicação.
    Acho que já escutei um milhão de vezes a pergunta "mas porquê você treina todo dia, porquê correr maratonas, porquê pedalar um dia inteiro? Hoje você conseguiu com essa analogia me dar argumentos.
    Grande abraço
    Paulinho

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  9. Caro amigo Max,
    Estava substituindo o encontro com os lobos pelo contato insano com a internet, treino por teclado, quando não pude deixar de passar pelo seu blog, consequência lógica: AO ENCONTRO DA MATILHA A CÉU ABERTO.
    Muito obrigado caro, ganhei minha manhã...

    Marcelo Gutto

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