quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Tri Do



Buscando recursos e idéias para a parte II do assunto Road? Tri? TT? Nda  (http://maxkonabikes.blogspot.com/2011/08/road-tri-tt-nda-parte-i.html), acabei gravitando em torno de outro tema que não deixa de ser pertinente e que resolvi abordar antes de publicar a parte II. Embora trate-se de pura utopia, ilustra bem a minha maneira de encarar esse esporte e aponta um caminho para falta de embasamento que acaba prejudicando seus praticantes. Assim, acho que de certa maneira esse texto serve de pausa para reflexão entre as partes I e II do tema "qual bike usar".

Tudo seria diferente hoje se o triatlon houvesse nascido no Japão, não como esporte mas como arte marcial. Nesse contexto, os aspirantes a triatletas seriam admitidos ao treinamento, e posteriormente instruídos, dentro do sistema de faixas coloridas: branca, azul, amarela, laranja, verde, roxa, marrom e preta. E cada faixa definiria um estágio de maturação, e duraria o tempo necessário para que essa maturação ocorresse. 


Assim, por exemplo, um iniciante não usaria nem faixa nem uniforme. Não teria nenhum equipamento - específico ou genérico. Seu material de treino consistiria de uma escova de dentes para lavar as privadas do templo. Ele acordaria antes do nascer do sol para meditar, e iria dormir quando a escuridão chegasse. Essa etapa duraria o tempo necessário para que o candidato a atleta deixasse de perguntar ao Mestre "quando vou parar de limpar latrinas e começar a treinar" e mantivesse o foco em sua tarefa de polir a cerâmica dos vasos. Não sei quantos passariam desse estágio, mas os que seguissem adiante começariam com duas virtudes essenciais - paciência e humildade.  


A faixa branca traria as primeiras corridas (descalço, para trazer mantimentos ao templo), primeiras braçadas (sem roupa), e as primeiras pedaladas (em bicicleta cargueira, para trazer mantimentos mais pesados e volumosos ao templo). A limpeza de louça sanitária na base da escovinha permaneceria. Nada de competições ainda.  Esse estágio duraria até que o candidato a atleta parasse de reclamar das bolhas nos pés, da temperatura da água, e do peso da carga na bicicleta. Alguns outros ficariam pelo caminho. Os que continuassem agregariam a resistência mental à lista de virtudes.


A faixa amarela traria as primeiras provas, todas em distâncias curtas - de sunga, com bicicleta cargueira e descalço. Os que aguentassem o tranco durante a primeira temporada, demonstrando resistência física, passariam para a faixa laranja. Nessa faixa, o atleta poderia comprar um tênis e uma bicicleta de estrada comum, e passaria por mais um ciclo de competições. Se passasse por esse ciclo sem desanimar diante das derrotas e sem vangloriar-se diante das vitórias, seguiria para a faixa verde por ter demonstrado auto-controle tanto na condição de vencedor como na de perdedor. Ao longo de todo esse tempo, a escovinha de dentes e a limpeza das privadas permaneceriam. 


Os faixa verde poderiam começar a competir em provas mais longas se desejassem, ou treinar com mais intensidade para as curtas, e poderiam aposentar a escova de dentes, que seria substituída por um escovão para limpar o chão do banheiro. Nessa faixa não haveria mudança de equipamento, apenas aumento de carga ou volume nos treinos. Os que passassem por uma temporada de provas sem reclamar da falta de equipamentos melhores e do trabalho mais intenso seguiriam para a faixa roxa, aprovados por resiliência. 


A partir da faixa roxa, cada atleta poderia utilizar roupas de neoprene ou skinsuits para nadar, poderia adquirir uma bicicleta de ciclismo de carbono, óculos escuros e viseira para correr. Poderia partir também para provas longas até a distância 70.3 se desejasse. A promoção para a faixa marrom viria automaticamente depois de dois anos, desde que não houvessem reclamações de qualquer tipo. 


Os faixa marrom deveriam passar ao menos uma temporada toda treinando e competindo com os mesmos equipamentos básicos da época em que eram faixa-branca, e receberiam nova escova de dentes e mais privadas para limpar. Qualquer reclamação implicaria em perder a faixa. O tempo de duração seria indeterminado. Quando o Mestre achasse que o atleta estava pronto, concederia  a faixa preta. Qualquer atleta que perguntasse "Quando vou passar para a faixa preta?" perderia sua faixa marrom. 


Por fim, a faixa preta. Os que restassem - pacientes, humildes, harmônicos com seu universo interior e exterior, resilientes, controlados, fortes mental e fisicamente - teriam o direito de participar de qualquer prova, inclusive as de Ironman. Poderiam adquirir equipamentos de ponta  e utilizá-los livremente. Poderiam abandonar a escova e o esfregão. Poderiam guardar seus troféus e medalhas (que até então, se conquistados, seriam jogado em um rio). A partir desse ponto, começariam a aprender técnicas mais elaboradas - físicas e mentais - e passariam a progredir nos diferentes níveis de faixa preta (Dan). Com base no que acontece em outras artes marciais, um atleta que houvesse começado na adolescência poderia tornar-se  Mestre de Tri Do em torno dos 65 anos.


Nas competições, ao invés de faixas etárias, os atletas seriam agrupados de acordo com as cores de suas faixas. Assim, ao invés da idade cronológica, o tempo de prática e a maturidade física seriam os reais balizadores. E o Tri Do, assim como o Ju Do, Karate Do, Kyu Do, Ken Do, seria um instrumento onde a técnica e a competição (ou o combate) agiriam como meros instrumentos para fazer do praticante um indivíduo melhor. E de quebra, todos os praticantes saberiam exatamente o que usar, quando usar, e como usar, porque estariam inseridos em um contexto onde a vontade do indivíduo (eu quero, eu não quero) é equilibrada por uma ordem maior (você pode, você não pode) . Alguns aspirantes a atletas iriam sentir-se prejudicados, mas o esporte, e a sociedade em si, sairiam ganhando.  



15 comentários:

  1. Essa inspiração está vindo de longos pedais? Vc está levando gravador? Merrrmão !!! que que é isso?

    Esse texto me lembrou como eu cheguei aqui: http://cirotriatleta.blogspot.com/2009/10/o-tao-do-triathlon.html

    Esse seria um belo processo evolutivo.

    Nesse final de semana, enquanto corria, passei por uma prova no Aterro. A volta da enseada de Botafogo. Essa é uma prova da federação carioca. Tinha o pessoal de road e tb havia a categoria das MTB's. O cara que liderava o pelote das MTB's ao longe parecia estar em uma TT devido a sua posição. Fora isso, o cara pedalava em uma bike que mais parecia uma bike de supermercado. Não consegui identificar a bike e nem teria conhecimento para tal. Mas, vi que ele não tinha suspensão.
    Ali, o ciclista parecia estar em conexão com a magrela e demonstrava saber tirar dela tudo o que era possível, mas seu corpo era o grande propulsor de tudo, a magrela apenas o meio para tal.
    Confesso, que me emocionei com a cena.

    Vou pegar mais infos sobre o cara e a magrela.

    ABS.

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  2. Lindo texto.....e eu que vim das artes marciais achei show. Vou ate copiar e guardar. So me fale a cha que tu tomaste antes de escrever isto que ¨O bagunho eh loco veio --- sinissstro¨ hehehe
    Sobre o comentario de um cara pedalando com uma bike normal....ja participei de prova andando forte com uma galera e no meio estava um cara com uma mero caloi 10 andando junto....galera nem queria olhar....e aqueles treinos na estrada que aparece um cara do nada pedalando quase que do lado com um fogao na garupa da bike, a mulher no quadro e o filho no colo...e o cara de chinelao...mais uma vez...detonou no blog...abraço

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  3. Sempre pensei assim, mas nunca tinha conseguido exemplificar....

    Simplesmente nota 10 -> com parabéns...

    cara.... to rindo sozinho aqui

    Muito bom Max...
    Muito bom!!!

    Acho que só vai acontecer isso, se houver uma catastrofe e comecarmos uma sociedade nova do zero.

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  4. Parem o mundo do triathlon...

    Retorno quando acordar dessa "viagem".

    LODD

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  5. E o incrível é que a verificação de palavras após meu comentário foi a palavra "right"

    Coincidência?

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  6. Muito, muito, muito bom Max, totalmente sem palavrasss, inacreditável, parabéns!!

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  7. Profundo. Atingiu a essência. O comentário do triathlonpaiva foi ótimo também. Quando volto para casa do trabalho sempre passam uns voando de Barra Forte e chinelo de dedo.
    Tenho tomado a liberdade de publicar alguns de seus posts na minha página do facebook. E esse vai para lá também.

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  8. Eh quase um mantra! Um passo de cada vez pra curtir e respeitar todas as fases do esporte. Parabéns Max!

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  9. Max,
    Grande sacada! Grande mesmo.

    Obrigado.

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  10. Texto espetacular Max... aliás, só para variar.

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  11. Sensacional...

    Eu havia passado mais ou menos perto desse raciocínio: http://emiltri.blogspot.com/2011/04/filosofia-e-juventude.html

    Na oportunidade eu havi sido inspirado pelo exame de faixa do meu cunhado....

    Novamente parabéns.

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  12. Rs, me sa um pouco disso que tomou que é do bom...rrsrsr...Max a cada dia que passa mais concordo com tudo que disse, muito bom esse seu texto! Parabéns!

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  13. Acabei de imprimir e colocar na porta do guarda-roupa, pra toda vez que acordar pra treinar reconhecer o meu lugar.

    Texto fantástico!!!

    Parabéns Max e valeu pela dica da Felt 95, gostei muito da laranja/preta, mas acredito que saiu de linha.

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