segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Rolo (I)



O rolo - também conhecido como trainer, ou indoor trainer - é um desses equipamentos cuja utilização normalmente está vinculada a algum "plano B".

Se chover ou fizer muito frio, vou pedalar no rolo.
Se não der tempo de ir pra estrada, vou treinar no rolo.
O trânsito está muito intenso, então vou pedalar no rolo.
Na minha cidade tem muito assalto, então pedalo no rolo.

Claro que todas esses contextos justificam plenamente o uso da ferramenta de ciclismo indoor .  Não fosse por ela, pessoas que que moram em lugares como Toronto, que trabalham 15 horas por dia ou que não tem a menor pretensão de serem atropeladas por algum bêbado as 6 horas da manhã simplesmente não teriam como treinar ciclismo com regularidade.

Só que além de todos os usos alternativos mencionados acima e provavelmente de outros não citados aqui, esse equipamento tem um potencial muito grande para ser muito mais do que uma opção B - em qualquer treinamento bem estruturado de ciclismo e triatlon para amadores. E esse programa de treinamento à base de sessões no rolo não dura o ano inteiro nem substitui o pedal na estrada, mas pode influir decisivamente no que irá acontecer na estrada quando a hora certa chegar.

Antes de mostrar como isso é possível, vale a pena investir algum tempo para colocar em perspectiva o conceito de "treinar no rolo".

Conceitualmente, o trainer é análogo à piscina e à pista de treinamento. Na pista de corridas e na piscina, temos um ambiente controlado, finito, e praticamente livre de variáveis externas que influam no monitoramento dos resultados obtidos no treinamento (variação de altimetria no caso da corrida, correntezas no caso da piscina). Assim,  a execução dos exercícios e o monitoramento dos resultados levam em conta, basicamente, a eficiência técnica e fisiológica do atleta. O resto - as variáveis - entra na equação mais tarde, quando o atleta for nadar em águas abertas ou correr em provas de rua, mas até lá o fator fisiológico já é conhecido e foi trabalhado extensivamente. A vantagem desse sistema é que o atleta adquire um conhecimento muito claro daquilo que ele, enquanto motor, é capaz de realizar.

Com o trainer não é diferente, já que ao ser utilizado variáveis como vento, diferença de altimetria e vácuo, tão importantes nas provas de rua mas tão invasivas quando se trata de analisar a performance do atleta isoladamente, simplesmente são eliminadas. No rolo, o atleta é praticamente só motor, já que o que ele produz em termos de resultado não é influenciado por praticamente nenhum fator externo (há que se prestar atenção na manutenção da ventilação e temperatura do ambiente).

O ciclista pedalando no rolo portanto é praticamente como um motor retirado do chassis e colocado em uma bancada de testes. Ao longo de cada sessão de treinamento é possível identificar claramente onde estão os pontos fortes e fracos (muscular e cardiovascular) e realizar os trabalhos necessários para que o forte fique ainda mais forte e que o fraco seja fortalecido. E tudo isso com um foco impossível de ser reproduzido na estrada, já que o atleta não se preocupa com fatores externos (trânsito principalmente), e o técnico não precisa descontar altimetria, vento, vácuo, aerodinâmica, etc.

Dentro dessa linha de raciocínio, o rolo é instrumental não para "tapar buracos", mas para construir uma base fisiológica sólida e clara, e também para a realização de séries intervaladas de VO2, LT (limiar de potência ou L1), e SST (aprox. 10% abaixo do LT), já que intervalos de curta distância (anaeróbico) com sprint fora do selim são um pouco mais complicados no rolo, mas bem mais fáceis de executar numa pequena reta asfaltada.

Em paralelo, o rolo permite também, para quem não usa potência como referência principal, a escolha de um ou vários parâmetros - metragem (relação coroa x cassete), cadência, FC, PE - para balizar seus treinamentos e aferir os resultados na estrada posteriormente. Mais do que isso na verdade, ele permite o cruzamento desses dados em várias situações, levando a uma validação mais segura dos resultados.

Após algumas semanas de treino no rolo, o atleta (e seu técnico se for o caso) passa a saber o quanto ele - como motor - é capaz de realizar em termos de esforço independente dos fatores externos já mencionados. A partir daí, tem também melhores condições de determinar o quanto a aerodinâmica (e aqui entenda-se por extensão todos os equipamentos e acessórios aero, bem como bike fit) influi no seu desempenho, ficando menos sujeito a ser influenciado pela  "sabedoria" de vendedores e pela  "experiência" de outros atletas.

Por fim, em nenhum outro local é possível realizar com tanta eficiência os treinos de técnica, principalmente a pedalada isolada - tão pouco valorizada e menos ainda exercitada, mas que é tão importante para pedalarmos de forma harmônica e eficiente.

Em resumo então: vale a pena usar rolo? Vale. Somente para treinar em dias de chuva? Não. Ele pode - e deve, na minha opinião - ser incorporado de maneira estratégica ao longo do ciclo de treinamento completo, tanto para produzir indicadores "puros" - sem a mistura dos fatores externos - como para sofrimento objetivo, no caso dos intervalados, já que treino indoor está longe de ser indolor.

Tudo o que foi dito aqui remete a outras questões - qual o melhor tipo de rolo, quais as diferenças entre magnético e fluido, como calibrar, etc. - que serão respondidas, ou pelo menos abordadas, ao longo dos próximos meses. Principalmente porque eu, tanto por uma questão de Plano A como B, estou totalmente enrolado.

13 comentários:

  1. Mais um vez , seu blog vem com informações na hora correta, além disso sempre bem escrito com informações pertinentes. Parabéns

    Pretendo comprar meu Rolo para além das razões descritas (emergenciais) como complemento de treino. Mas francamente não tenho ideia de como escolher um. Muitos amigos me sugerem comprar o mais barato outros dizem que vale a pena gastar mais etc... Acredito que você vá abordar nos próximos posts esse assunto , como escolher ou qual comprar. Mas uma vez parabéns pelo blog

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  2. O meu era só para plano B, este ano ele será parte fundamental do meu planejamento de treinos.

    Treinos durante a semana( 3x ) no rolo, spinning como plano B.

    Final de semana estrada, rolo como plano B.

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  3. Max, permita-me dar um "conselho" (sem qualquer pretensão) ao Fernando Asdourian: Só parta para um rolo mais barato se for questão de indisponibilidade financeira. Caso contrário, invista num bom rolo (por exemplo: Cycle Ops SuperMagneto Pro, algo em torno de R$ 1.300,00/R$ 1.400,00), comecei com um mais barato e não gostava, depois que passei a usar um melhor, o quadro é completamente outro, os treinos ficam bem interessantes. E se o bolso permitir, há Computrainers etc etc. Só fala mal de rolo quem nunca experimentou um de boa qualidade.
    abs,
    Guilherme

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  4. Entre o IM de Floripa e o 70.3 de Penha fiz apenas um treino na rua.

    Entre o 70.3 Penha e o 70.3 de Miami, idem.

    Todos os outros treinos foram feitos no rolo, com um aproveitamento muito melhor do meu tempo e sem os famigerados junk miles.

    Sei lá, mas desconfio que os 85% dos treinos para a distância de meio-iron para aqueles que tem certa bagagem podem ser feitos no rolo com ótimos resultados.

    Para pessoas com a bagagem do Topan, talvez até o Iron....;-)))

    Além de todas as vantagens citadas, há ainda os rolos são fundamentais para os treinos de intensidade (intervalados ou TT) que, embora mais curtos, podem ser extremamente úteis pra atletas de endurance - sobretudo quando a idade avança.

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  5. Acho o rolo um investimento muito bem feito.
    Moro no Rio e o povo aqui treina na madruga, alguns treinos começam as 5 e outro antes disso.
    Fora a segurança e os horarios melhores.
    O treino no rolo proporciona, como vc falou, treinos específicos e bem controlados.
    Hj, dos 3 treinos que faço, dois são obrigatoriamente no rolo.
    Não me vejo treinando sem ele.

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  6. Eu treineiara penha fazendo os treinos durante a semana no rolo e finais de semana na estrada. Com cérteza tenho que aprimorar muito sobre os treinos no rolo, não é fácil. Quero aprender mais sobre esta erramenta. Parabéns pelo texto.

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  7. Excelente Post Max, principalmente quando você diz "indoor está longe de ser indolor". Quando eu treino no rolo sinto muito mais dor e cansaço do que na estrada, até porque no rolo você é obrigado a pedalar e não tem como "enganar".

    Abraço!

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  8. Além de ser mais seguro, tbm acho mto mais fácil de controlar os batimentos, tempos, etc...
    Esse ano vou fazer meus treinos praticamentes todos no rolo, mnos os longos e subidas, melhor aquisiçao que eu já fiz relacionado a ciclismo.

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  9. Excelente post!!!

    O meu rolo foi comprado na intenção de plano B. Hoje ele é A. São 3 treinos de rolo no meio da semana. MTB no sábado e somente no domingo vou para estrada!

    Por todos os motivos citados no texto o rolo hoje é meu treino principal: Trânsito, volto tarde do trabalho etc.
    Se as provas fosse no rolo até que eu poderia me dar bem rs.

    Abraços,
    Ronald Felipe

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  10. Obrigado Guilherme , vou na sua !!!! Tem algum modelo que vc ou alguém do blog recomenda ? e local que parcele rsrsrsrs

    Um abraço

    PS: Escreve no seu blog tb

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  11. parece q tem uma tal de kona bikes em curitiba q vende rolos...

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  12. Sempre treinei no rolo durante a semana. Desde 2002. Fiz 5 ironn e mais uns 12 meios. Em todos eles tive resultados satisfatórios.
    Com disciplina e conhecimento, é possível treinar até mesmo nas bikes de spinning.
    Muito bom este post, pois ajuda a desmistificar a ideia de que rolo só serve prá "tapar buracos".
    Abraços e um feliz 2012!

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