sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pense, Trabalhe, Espere - e Depois Aguente



O tema dos preços de algumas bicicletas de competição já foi lavado, enxaguado e torcido tantas vezes que se fosse pano estaria prestes a rasgar. Muitos - gente demais até - sabem que elas custam caro. Muitos - mas não tantos quanto seria de se esperar - sabem que nem sempre o retorno desse investimento alto irá aparecer sob a forma de maior rendimento. Mas isso não muda um fato: a cada lançamento novo, olhos brilham, corações palpitam e saldos bancários ficam um pouco menos azuis. Conclusão: bikes de competição de alto nível são caras, quem compra nem sempre tem interesse ou condições de extrair delas tudo o que oferecem, mas isso não impede que continuem sendo vendidas.

As coisas são assim porque esse tipo de bicicleta, em algum ponto, deixa de ser um bem de consumo e passa a ser Objeto de Desejo. Não desejo de podium, mas desejo de ter satisfeita uma vontade, um sonho. E isso, ao contrário do que se propaga em alguns canais, não é mania de triatleta. É programa default da maioria esmagadora dos seres humanos: temos vontade de comer, beber, receber carinho, ter um teto, ser reconhecido, ter uma Ferrari, um Lear Jet, o mundo aos nossos pés. E se por um lado uma herança cartesiana nos leva a quantificar esses sonhos e atribuir a cada um deles um valor objetivo - quanto esse sonho custa - por outro o valor intrínseco de cada um pode ser muito maior do que o valor atribuído. Não importa se o que nos dá água na boca é pão caseiro com manteiga derretida ou caviar - ambos estão à venda e disponíveis para quem faz gosto.  Para quem pensa, trabalha e espera, não é uma questão de se, mas sim de quando.

E embora em alguns casos essa busca dos sonhos tome um aspecto doentio, fazendo com que o meio para que eles se concretizem - nesse caso o dinheiro - passe a ser o sonho em si, sou levado a crer, pela grande maioria das pessoas com as quais me relaciono, que a realização de um sonho de consumo - não importa seu valor, tamanho ou projeção social - é conquistada menos com dinheiro do que com horas de estudo, horas de trabalho e horas de espera. O dinheiro é simplesmente o catalisador de toda essa alquimia. Essas pessoas tem (muito) dinheiro porque planejaram muito, trabalharam muito e souberam esperar. O dinheiro, o poder comprar, é uma consequência de um caminho bem trilhado.

E ao longo desse processo, tudo aquilo que essas pessoas foram conquistando para si não implicou - ao contrário do que uma corrente maior ainda costuma apregoar - na subtração de algo alheio. O processo saudável do "ter" não implica no "tirar de alguém", "roubar de alguém" ou "impedir alguém de ter também". O problema talvez é que como somos (ou melhor dizendo, fomos) acostumados a tomar por real aquilo que aparece na mídia, e pessoas sadias, equilibradas e normais raramente são notícia - afinal de contas personagens sem paranóias e histórias sem drama não dá ibobe - acabamos concluindo que toda a família abastada é encabeçada por um mafioso casado com uma dondoca fútil que não dá a mínima para o casal de filhos adolescentes - ela viciada  e ele delinquente.

Em contrapartida, como a  idéia - a simples idéia - de que afluência e harmonia pessoal, familiar e profissional possam caminhar lado a lado não aparece no noticiário, nas novelas, no BBB ou nos grandes filmes e best sellers - que como vimos preferem associar "bem sucedido" à "doentio de alguma forma" - os homens e mulheres  poderosos (no sentido de poder realizar seus sonhos) e resolvidos (por conseguirem conviver com suas neuras sem precisar levá-las à público) são vistos como fruto do demérito, nunca do mérito.

Desse pensamento enviesado nascem atitudes que condenam a compra ou posse de qualquer coisa que não seja o básico. Coma pão, beba água, escreva com bic, pedale de barraforte e trabalhe 25 horas por dia que você vai pro céu. Um passo além disso e você vai pro inferno - que, aliás, começa aqui na terra mesmo sob a forma nebulosa da inveja e inconformismo alheios.


Quanto mais eu penso nisso, mais imagino três homens diante de uma vitrine olhando - para ser genérico no exemplo - uma Ferrari.

O primeiro olha, sorri, e pensa: bonito. Depois vai embora a pé feliz da vida - em primeiro lugar porque ele já havia chegado ali feliz, e ter a Ferrari ou não teria impacto zero nesse status. Em segundo porque ele verdadeiramente não deseja uma Ferrari.

O segundo olha, faz uma conta, entra na loja e compra a Ferrari. Depois vai embora também feliz da vida - em primeiro lugar porque suas horas de planejamento, trabalho e paciência acabaram de se transformar na materialização de um sonho, e em segundo porque mesmo sem a Ferrari ele tem estabilidade emocional suficiente para continuar sendo feliz.

O terceiro - que não era afeto a planejar, trabalhar e esperar - olha para a Ferrari e pensa: "nunca vou poder ter uma dessas". Depois olha para o homem que sai da loja e diz para si: "Imagina...esse deve estar roubando um monte...". Depois vai embora infeliz -  por ser incapaz de acreditar na própria vitória e por ser igualmente incapaz de aceitar a alheia.

Procuro construir minha realidade com base no que vejo de melhor nas pessoas. Não me interessam os que enriquecem ilicitamente, como não me interessam os que ganham dopados. No meu mundo eles são um risco, não a pintura.  Prefiro acreditar que o mundo - o meu e o seu - está cheio de gente que no processo de "ter" não só não tira nada de ninguém como ainda contribui para que outros possam materializar seus próprios sonhos. Gente que, por exemplo, chega em casa com um sonho de consumo recém-adquirido, abraça os filhos (sadios), beija a esposa (trabalhadora) e - pasmem - dorme noite após noite o sono dos justos.

Enquanto isso, em algum lugar dorme também um sono feliz aquele que não tem mais desejos de consumo - quer por tê-los realizado integralmente, quer por ter elevado seu espírito além do nosso patamar.

Só permanece acordado, se debatendo entre pesadelos e horas de insônia, aquele que finge que não deseja, inveja quem conquista, e insiste em não planejar, não trabalhar e não esperar.

Em tempo: Daniel, continue surtando feliz da vida. 

10 comentários:

  1. Max, não sei o que vc comeu (ou bebeu) no almoço de hoje, mas seja lá o que foi te deu bela inspiração.
    Belo texto. Treinar para subir estas serras da vida tá te fazendo bem!
    abs,
    Guilherme

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    1. Guilherme,

      eu tava engasgado (e não foi com o almoço).

      Nada que umas marteladas no teclado não resolvam :-)

      ab.

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  2. BRILHANTE!!!!!!!!

    Impressionado como um texto despretensioso pôde gerar uma polêmica que resultou neste seu texto espetacularmente inteligente. Levo sua últiima frase como uma dedicatória! De coração, muito obrigado!

    O "sonho" já está encaminhado....heheheheh

    Abraço!

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  3. Buenas!! vou escrever o que escrevi no Bolg do Daniel:

    Olá Daniel, apenas lí seu blog uma vez (hj é a segunda), e foi na data da opinião do "$$$", não sei de quem... E me lembrei de uma passagem em minha vida..
    Certa vez em uma livraria, eu e a "Patroa" paramos e me apaixonie por um livro do Da Vinci, grandão, bela impressão, lindo livro! lindão! ( e caro!) e fui questionado, "PQ este livro, vc precisa??" sem querer, sem ser maldoso respondi; "MEU CORAÇÃO PRECISA", ela entendeu, estamos aí... por isto... seja feliz, seu coração precisa!!! super abraço, Caio

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    1. Caio, é uma pena mas não achei este seu comentário lá no meu blog! Mas o importante é que foi lido! Bom saber que o mundo está cheio de pessoas normais! O bom da vida é poder fazer o que se quer, o que o coração precisa! Abração!

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  4. Max, mais uma vez você vem falar tudo aquilo que os varios leitores do seu blog gostariam de dizer, fui olhar a origem no blog do Daniel e realmente a infelicidade do anonimo é uma soma de incompetencia,Inveja e com certeza nem sabe o que é fazer um Iron pra 10:28 .Boa sorte ao Daniel com a NAVE.

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  5. Max,

    Eu acredito que as pessoas que invejam alguém que possa ter um bem mais caro, no caso aqui a bike, ficam frustradas com a situação quando veem que a outra pessoa comprou o tal objeto de desejo. E nesse caso para uma auto-justificava para aceitar a frustração, logo de cara pensa em uma coisa ruim.

    Ai fica fácil achar que fulano comprou a bike por que é filhinho de papai, ou por que não declarou imposto e por ai vai.

    Não é mais fácil para um sedentário dizer que não tem tempo para treinar e ficar com a conciencia tranquila? Pronto... ele se justificou.

    E isso é com tudo. Se você trocar de carro o seu vizinho vai se questionar, se você comprar um apto melhor alguém vai pensar a mesma coisa. Dificilmente alguém vai reconhecer o seu esforço.

    Como dizia o meu avô: As pessoas só veem as pingas que eu tomo, mas ninguém ve os tombos que eu levo.

    Para quem não é do meio e me pergunta quando custa a minha bike, eu não falo a verdade. Não quero nem dar a chance para os outros julgarem o que é que estou fazendo e o quanto estou gastando.

    Infelizmente é mais fácil criticar do que utilizar aquela frustração como motivação para alcançar um objetivo, para a maioria das pessoas.

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  6. MAX, muito legal seu texto, parabens! Pessoas invejosas sao dignas de pena mesmo, ou melhor, de nossa compaixao ate! Acabam sendo infelizes em todas as areas da vida! Fui ler a opiniao do "$$$" no blog do Daniel Blois, e porem, acredito que, como o Daniel tambem entendeu, o lance do anônimo foi mais pro lado do repudio a ostentação ( acredito que ele NAO leu os outros Posts do Daniel pra ter como referencia que NAO houve intencao em ostentar com a frase " posso comprar......posso ter"), acredito que teve mesmo um pouco de fundamento se partirmos do ponto de vista de querer alertar sobre NAO se expor a familia e muito menos as posses de bens materiais, mas ele NAO se expressou bem e acabou ofendendo o Daniel! Eu sou da opiniao do Bruno Pinheiro, prefiro NAO expor pra evitar que julguem o que estou fazendo ou gastando, imagens de minha esposa e filhos (futuros) jamais serao acessadas de meu blog, e se eu comprar uma P5, quando virem e se virem e porque ja estarei usando no meio da galera, e NAO porque informei que iria comprar! Mas esse e apenas meu estilo, meu modo de ser e de pensar, respeito o jeito de ser de cada um! Mas inveja NAO cabe, e um sentimento muito pobre mesmo! Estou feliz por voce Daniel, e parabens pelo texto novamente Max e por apoiar nosso amigo, pois poucos colegas de treino e de Iron quiseram opinar!

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  7. Caramba, Max... Você consegue o improvável feito de se superar a cada texto!! PQP (desculpe-me pelo "palavrão", mas foi inevitável, rs!)!!
    Um texto despretensioso e gostoso de ler, que passa uma mensagem formidável! Sensacional!
    Meus sinceros - e humildes - parabéns!!
    Um abraço!

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