segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Treine Como Se Houvesse Amanhã
Há quem diga que é preciso viver o dia de hoje como se fosse o último. "Carpe Diem", segundo Horácio em Odes, ou "Seize the Day", segundo Mr. Keating no excelente Dead Poets Society.
Palavras como essas são passíveis de interpretações bem distintas. Elas podem servir de escudo para passarmos completamente da medida - comer, beber, gastar em demasia - afinal "amanhã pouco importa". Ou podem servir de estimulo para darmos valor à coisas que realmente importam e deixarmos de lado o que é superficial e supérfluo (quem tiver um tempo extra, vale a leitura de Walden, por Henry Thoreau).
No que diz respeito a atletas especificamente, o conceito de "viver o momento com intensidade" parece ser abraçado de uma maneira muito peculiar quando da execução do treinamento diário. Essa afirmação parte, por um lado, de observações pessoais e, por outro, do resultado de conversas com técnicos com os quais tenho contato.
Recentemente, numa dessas conversas, o técnico comentava que embora alguns de seus atletas sejam bastante experientes e recebam planilhas bem detalhadas com relação à duração e intensidade de cada estímulo, eles invariavelmente acabam "adaptando" o treino - normalmente para deixá-lo um pouco mais intenso, mais longo, ou ambos. Isso acontece principalmente quando o atleta está se sentido forte ou bem disposto, capaz de enfrentar "com sobra" qualquer planilha.
- 10 x 100 mts. a cada 1:30'? Tá fácil, vou partir a cada 1:25;
- 100km em ritmo de endurance? Nahhh...tá sol....vou fazer mais uns 60tinha que não dá nada....
- 10 tiros de 1km pra 3:45? Mmmm...acho que eu aguento fazer pra 3:30'
Essa mudança no plano original traçado pelo técnico traz, logicamente, uma série de consequências a curto, médio e longo prazo:
1) o atleta, ao fazer o treino em um ritmo ou duração superiores ao indicado, sente-se mais forte e adquire confiança psicológica naquele momento; esse é o ganho (?) de curtíssimo prazo;
2) dependendo do número de repetições e do intervalo, os primeiros sairão abaixo do tempo indicado, e os restantes acima; esse é o que poderia ser chamado de efeito colateral de curto prazo;
Em ambos os casos, tanto a euforia como a decepção ocorrem durante o próprio treino e a primeira parece ser sempre mais forte que a segunda.
3) após ter realizado o esforço para cumprir a série na intensidade ou duração a que se propôs, o atleta chega ao(s) próximo(s) dia(s) de treino sentido-se fraco, sem energia e desanimado, sofrendo os típicos efeitos colaterais de médio prazo;
Como esse tipo de bravura diante do treino não costuma ser um evento isolado, 1, 2 e 3 acima tendem a acumular-se ao longo do ciclo de treinamento, resultando em:
4) chega o dia da prova, e o Super Homem sente-se como Clark Kent sem Kryptonita depois de ter passado uma noite caliente com Lois Lane.
Bode expiatório é o que não falta para explicar o insucesso: suplemento não presta, técnico incompetente, bicicleta ruim, roda com rolamento preso, tênis com sola dura, roupa de borracha que prende o ombro, etc. etc. etc. E depois a grande frase de efeito para encerrar o drama: "O que eu não entendo é que nos treinos eu fiz várias vezes tempos muito melhores!!!".
Com certeza fez. Mas fez na hora errada, porque confundiu treinar forte e/ou treinar muito com treinar bem.
Se treinamento esportivo fosse uma atividade baseada em fazer o que queremos quando nos parece apropriado, técnicos não existiriam e planilhas de treinamento seriam dispensáveis. A função do técnico - ou a missão de quem constrói seu próprio treinamento - é justamente planejar a longo prazo para poder executar corretamente a curto prazo. Afinal, o treinamento esportivo não é uma série de eventos isolados e desconectados entre si, mas sim uma cadeia de eventos sucessivos e interdependentes.
Portanto o técnico, levando em conta a data das principais provas do atleta, suas limitações e aptidões, constrói - de trás para frente - o que se chama de "ciclo de treinamento". E esse ciclo prevê a aplicação de estímulos ou cargas variáveis, e também de períodos de descanso entre os estímulos. Dessa maneira, o corpo pode processar a carga sem ficar sobrecarregado. Como diz Hunter Allen, "não existe overtraining e sim overreaching (estabelecer objetivos além da capacidade).
O atleta afoito, que resolve treinar hoje como se não existisse amanhã, coloca toda a sua energia no treino de um dia sem se preocupar com o impacto disso no futuro - seja esse futuro amanhã, na próxima semana ou no próximo mês. Só que quer ele reconheça e aceite ou não, o impacto está lá, e fará sentir-se cedo ou tarde.
Exemplo numérico para os iniciados no WKO+: um treino com até 150 TSS (+-) teoricamente permite outro igualmente intenso no dia seguinte; entre 150 e 200 TSS, melhor descansar 24 hs. De 250 TSS pra cima, melhor descansar (mesmo que seja descanso ativo) 48hs.
Ainda na linha de treinamento com potência, esse é um dos motivos pelos quais intervalos em SST são tão populares - eles podem ser repetidos diariamente sem que haja um resíduo de fadiga tão grande como pelo provocado nos intervalos de LT (e a diferença de Watts não é muito grande...).
Portanto, no esporte como na vida em geral, ouvir quem sabe mais do que nós e agir com moderação não fazem mal nenhum (embora não sejam bons combustíveis para atos de bravura ou momentos de bravata). E já que estou com Dead Poets Society na cabeça, acabo com uma frase do próprio Mr. Keating que resume bem tudo o que foi escrito:
"Sucking the marrow out of life doesn't mean choking on the bone".
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Max,
ResponderExcluirShhhhhh.... Ja te pedi pra não espalhar esse tipo de coisa?!? Rsrs
Uma coisa muuuito engraçada, esse tipo de comportamento embora exista em todo esporte é muito mais comum (eu diria quase que uma regra) entre nós triatletas!
Abs
caramba max... a cada dia me impressiono mais com teus posts... quantas e quantas vezes eu fiz EXATAMENTE oq voce citou... sempre acima do que ta na planilha... e sinto exatamente a fadiga a "medio prazo" que voce falou. vou "favoritar" o texto e refletir bastante. acho que a palavra chave no esporte, sem duvida nenhuma, é mesmo a PACIENCIA. Valeu!
ResponderExcluirConcordo plenamente... desde que exista, mesmo, uma relação técnico-atleta ou atleta-técnico.
ResponderExcluirTreinos a base de Control-C e Control-V , ou a famosa receita de bolo para todos na equipe são muito comuns.
Existem atletas fazendo as séries de 10 x 1km pra 3´45" que poderiam estar correndo pra 3´30"
...
e os que precisariam estar correndo pra 4´10"/km
E os dois com a mesma planilha.
Lodd,
ResponderExcluirvc. largou 12 anos na frente....relaxa :-)
Afonso,
vc. fez, eu fiz, todo mundo fez. O negócio é, um dia, parar de fazer.
Ciro
concordo 100%. Existem técnicos e confeiteiros )-:
eu ainda faço...
ResponderExcluirAbs.,
Ronald
Paciência, inteligência, auto-conhecimento... são algumas das "chaves".
ResponderExcluirÉ por isso que as minhas principais metas são para os próximos 3 ou 5 anos... e olha que já estou nessa desde 2006...
No meu caso, que comecei a treinar para triathlon há 3 meses,vivo fazendo isso, pq nunca sei o que vai acontecer amanhã. Já cansei de perder treino por motivo trabalho e/ou família e depois me arrependo de ter feito o treino "de boa" ontem.
ResponderExcluirRecebo planilha do técnico mas todo dia estou adaptando...
Mas mesmo se não tivesse esse problema de tempo, eu sempre fiz isso enqto apenas nadador. Sentia que estava no dia e socava a bota, só que o dia seguinte era o dia de socar a bota, aí já se sabe o que acontece....
Max, seu blog é muito bom, digo mais uma vez, EU ESTUDO por ele e não tem um treino de bike que não lembro de agum post seu!