quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Filho de Peixe Nada
Creio que todo o praticante de esportes àvido - seja amador, profissional ou ocasional - nutre um desejo quase nunca reprimido que seus filhos "tomem gosto pela coisa", que vem a ser o mesmo esporte praticado ou adorado pelo pai. Sonhando acordado, o peladeiro de fim de semana olha seu pequeno chutando uma bexiga no primeiro aniversário e já imagina um futuro camisa 10 canarinho; o nadador Master que acabou de ser pai compra uma pequenina sunga antes mesmo de comprar a primeira fralda para o seu futuro Popov, e, como não poderia deixar de ser, todo o filho de um ciclista apaixonado acaba ganhando um autógrafo do vencedor do Tour ou do Giro antes mesmo de saber quem é Ronaldo (dinho ou dão).
Um pouco disso tem a ver com laços afetivos entre pais e filhos. O jovem que tem em sua memória emocional registros positivos relacionados às figuras maternas e paternas envolvidas com esportes acaba talvez com uma propensão maior a buscar, para si, registros semelhantes. Essa é a vertente positiva da herança esportiva - "eu pratico o esporte que meu pai ou minha mãe praticava porque isso está associado, de alguma forma, a um registro de felicidade, bem estar, energia positiva". E essa vertente é positiva sobretudo porque nasce espontaneamente. Ninguém obriga ou força esse jovem a fazer o que seus pais faziam. Ele o faz por impulso próprio. Ele abre a porta que conduz ao esporte pelo lado de dentro, com suas próprias mãos.
O lado escuro dessa vertente, não menos real, acontece quando a mesma porta que leva ao caminho do esporte é forçada de fora para dentro, e o jovem ou a criança são retirados de seu mundo para praticar uma atividade cujo objetivo primário é preencher as frustrações de seus pais (ou as neuroses políticas de seus países). Todo o resto - a felicidade, o bem estar e a energia positiva - são acessórios opcionais de um pacote indesejado, levando ao caminho doloroso do esporte sem paixão.
Quem vive em meio a atletas sabe o quanto esses cenários são verdadeiros, e acaba descobrindo também que os exemplos relacionados às frustrações e neuroses não são poucos. Eu, pelo menos, já vi de perto mais casos do que gosto de lembrar, e talvez tenha sido por isso que tomei cuidado redobrado ao apresentar o mundo dos esportes para os meus pequenos (quando eles eram pequenos....).
Num raciocínio extremamente simplista, sempre acreditei que o exemplo falaria mais que mil palavras, e foi assim - fazendo e praticamente nunca falando - que levei para eles a minha mensagem. Enquanto eles cresciam, papai nadava, papai pedalava, e de vez em quando papai corria. Às vezes papai chegava cansado, às vezes chegava atrasado, e às vezes mamãe brigava com ele porque chegava cansado demais e atrasado demais. Mas fora isso, papai parecia feliz fazendo o que fazia. Alias, parecia não. Papai era, e continua sendo, extremamente feliz praticando seu esporte. Portanto, papai acabou mostrando que ser feliz é possível na prática, e que ao menos um caminho viável, honesto e não muito complicado existe.
Por outro lado, talvez num excesso de zelo para não entrar no lado escuro da força, nunca fiz da prática esportiva uma obrigação para os pequenos. Embora todos os três tenham passado pelo circuito "escolinha de natação, escolinha de vôley", no dia em que aprenderam a nadar a obrigação da escolinha de natação acabou, e da escolinha de vôley não saiu nenhum pós-graduado. E embora eu já tenha me perguntado mais uma vez se não deveria ter insistido um pouco, acabo sempre voltando e me firmando à noção de que a linha que separa "incentivo" de "imposição" é tênue, e que mesmo que ao cruzá-la sejamos bem sucedidos (ainda bem que meu pai me obrigou a nadar, me disse uma vez um grande nadador), continuo achando que o componente emocional é o que vem em primeiro lugar. Praticar esportes tem a ver com bem estar emocional e físico, e o segundo não existe sem o primeiro. E continuo achando também que a porta para a prática esportiva só leva a um bom caminho se for aberta por dentro. Ficar esmurrando do lado de fora, ou arrombar, é receita para desastre emocional do jovem.
Como fruto dessa crença e da opção que se seguiu, hoje nenhum dos meus três filhos pratica esporte de forma catedrática - embora cada um pratique alguma forma de exercício moderado. E apesar de que certamente sempre tenha ficado com um olho de olho naquela bendita porta na esperança de um deles um dia a abra, não sou frustrado nem triste pelo fato dela (ainda?) permanecer fechada. Antes assim do que ter em casa um campeão trazendo nas costas troféus para minhas prateleiras imaginárias, ou tendo acorrentadas ao peito medalhas que eu nunca fui capaz de ganhar.
Mas um dia atrás do outro é realmente uma coisa curiosa. Ontem - ontem ainda - meu filho do meio disse que iria começar a nadar. "Estou com vontade de fazer algum esporte mais regular", foram as palavras dele, que atualmente é músico em tempo integral e goleiro titular em peladas de fim de semana. Nem tive tempo de respirar. "A que horas mesmo começa a aula da faculdade oito e meia então você pode fazer como eu fazia na sua idade vai nadar de madrugada que dá tempo e sobra eu vou com você fazer o teste conheço todo mundo lá você vai adorar tenho certeza vai desenvolver seu corpo de forma harmônica o que estamos esperando vamos lá". Se não foi isso foi mais ou menos isso.
Imagine. E eu imaginei! Com essas mãos que parecem uma raquete de frescobol e pés que dispensam nadadeiras! Com essa altura toda! Em um ano vai baixar de um minuto nos 100 livre. Xuxa...Gustavo Borges...Cielo....Popov...Thorpe....Ian Quint!
Mal meu filho entreabriu a porta, eu já tinha derrubado ela com parede e tudo e estava prestes a arrancá-lo de seu mundo para o meu.
Temos realmente que nos controlar. Às vezes, pouco pode a razão diante de uma grande paixão.
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Enviado por Xampa:
ResponderExcluirPERFEITO !!!!!!!!!!
Estou ainda na fase inicial, mas esse impulso é impressionante. Acontece.
Meu pai e a minha mãe nunca fizeram esporte e nunca me incentivaram. Muito pelo contrário.
Durante meus 5 anos como jogador de basquete das categorias de base do Flu eles nunca viram um jogo meu. Isso dói.
Mas, enfim.
Há uns anos atrás, fui fazer análise pq estava stressado e deprimido.
Lá pelas tantas conversas, a psicologa me falou que podemos criar nos nossos filhos, uma aversão ou uma admiração.
E essa aversão ou admiração (não me lembro se os nomes são esses) são frutos da interpretação que nossos filhos tem dos nossos atos.
Muito interessante isso. Eu tb prefiro dar o exemplo a ficar entubando atitudes que eu mesmo não pratico.
Eu errei...
ResponderExcluirMeu mais velho cresceu no auge da minha insanidade com o esporte... Coloquei ele pra nadar com (sei lá) uns 7-8 anos no treinamento da prefeitura aqui em VINHEDO (rs). O moleque nadava 4x por semana das 2h as 4h e olhava pra mim com aquele olhar de "eu amo isso por sua causa"... Bom, ele nadou por uns 2-3 anos.
NADA PRACARA... Num dia bom meu ele me batia nadando costas...
Aí a casa caiu, um dia ele acordou e disse que não guentava mais nadar!
Aquilo me cortou por dentro, mas fazer o que?
Parou, e talvez tenha perdido a melhor fase da vida pra estar ativo... Vira e mexe ele inventava algum outro esporte que não durava muito (judo, caratê, basquete, tenis, capoeira e por último que até que está durando o kung fu)
Todo esse tempo eu não deixava de olhar praquele MONSTRO e imaginar que com aquele tamanho (aos 15 anos ele já era maior que eu) ele poderia ser um novo Gustavo Borges, Xuxa...
Até que numa viajem no meio do ano passado, em uma piscina num hotel ele me chamou pro pau pra um 50m... Perdi, e perdi feio :-( e por incrível que pareça ele re-animou a nadar... Voltou pro "pre" treinameno e tem ido 2x por semana, e eu torço escondido pra que ele pegue gosto pela coisa de novo.
Agora, de uma coisa eu não me arrependo: ele tá destreinado, fora de forma, acima do peso... mas a hora que ele da as primeiras braçadas ele já faz o que eu não consegui em 10 anos treinando depois de velho - ele interage com a água, e isso me enche os olhos :-D
Agora, bicicleta que é bom.... ahahaha esse eu acho que todo mundo em casa tem birra!!!!! Eles usam só como "meio de transporte" mesmo.
Abs
LODD
Realmente temos que nos controlar Max.
ResponderExcluirMeu pai sempre foi esportista, jogou basquete (ou bola ao cesto como ele diz), correu 100m com barreiras e sempre me incentivou muito a praticar esportes, mas nunca me obrigou à escolher algum.
Joguei futebol de salão e ele estava lá, joguei basquete e ele estava lá, me levava na pista de Bicicross no final de semana, comprou uma sapatilha de corrida quando falei que ia correr os 100 e os 400m nos jogos universitários. Depois de tudo isso, acabei me apaixonando e escolhendo o triathlon e meu pai continua apoiando. Acho que é assim que tem que ser, e é assim que pretendo fazer com o Lucas (meu filho de 1 ano e 3 meses).
Nossa função é apresentar o esporte e seus benefícios aos nossos filhos, mas ao força-los à escolher por um esporte específico podemos estar, de repente, acabando com a chance desta paixão (como a nossa pelo triathlon)aflorar.
Abs
... e eu só vou observando pra tentar fazer dar certo lá na frente
ResponderExcluirMUITO COMPLICADO. MEU PAO FOI NADADOR ATÉ A FACULDADE E DEPOIS VOLTOU A NADAR MASTER. NADA MUITO. QUANDO ERAMOS CRIANÇA, POR VOLTA DOS 5-6 ANOS ELE NOS COLOCOU NA NATAÇÃO. LOGO EM SEGUIDA AS COMPETIÇÕES. GANHAMOS ALGUMAS PROVAS E LOGO JÁ NADAVAMOS 2 VEZES AO DIA. PERDEMOS DE FAZER MUITAS COISAS DE CRIAÇA POIS MAU PAI ACHAVA QUE TINHAMOS QUE TREINAR PRA VALER, TREINAR SÉRIO, ISSO COM UNS 10 ANOS. ACHO QUE PARA ELE ESTIVESSE FAZENDO A COISA CERTA, NOS INCENTIVANDO A SAÚDE, SPORTE, NOS AFASTANDO DAS DROGAS. MORAL DA HISTORIA: PARAMOS DE NADAR, SÓ VOLTEI COM UNS 27 ANOS, POR VONTADE PROPRIA. GOSTO DE NADAR, MAS PARA SATISFAZER UM DESEJO, UMA FRUSTRAÇÃO DO MEU PAI QUASE TUDO FOI EM VÃO OU TALVEZ TENHA PERDIDO A MELHOR FASE PARA SER COMPETITIVO POR TER INICIADO CEDO DE MAIS E COM MUITA SEDE AO POTE. REAVALIANDO HOJE NÃO ENTENDO COMO UM PROFSSIONAL DO ESPORTE ACEITAVA TREINAR CRIANÇAS NAQUELE NÍVEL E COM CERTAS COBRANÇAS, MAS SÃO AGUAS PASSADAS. ESPERO NÃO REPETIR O OCORRIDO COM MEUS FILHOS, CASO OS TENHA. MAS AO IMAGINAR EM TER UM FILHO COM CERTEZA GOSTARIA QUE ELE FOSSE U NADADOR, TRIATLETA, CICLISTA OU QUALQUER ESPORTE COMPETITIVO. ISTO COM CERTEZA TAMBÉM OCORRE EM OUTRAS ÁREAS.
ResponderExcluirACHO QUE SER O EXEMPLO DEVE SER A MELHOR FORMA DE EDUCAR.
Max,
ResponderExcluirEmbora não tenha filhos (e provavelmente não vou mais tê-los com meus 55 anos), aprendi que até uma determinada idade (digamos uns 8 ou 9 anos) todo esporte tem que ser lúdico para a criança. Quanto mais "obrigatório e competitivo" menos divertido e maior a possibilidade de a criança literalmente encher o saco.
Outra coisa que aprendi é que, em qualquer idade, é absolutamente necessário se amar o esporte praticado, caso contrário não vinga.
TEU COMENTARIO ME FEZ LEMBRAR O XUXA, QUE APOS ABANDONAR A NATAÇÃO DISSE QUE ODIAVA NADAR. COMO ELE CONSEGUIU? DEVE TER SIDO MUITO DIFÍCIL, MUITO FOCO.
ExcluirSensacional Max!
ResponderExcluirMinha filha não sei liga muito em esporte, agora aos 9 anos começou a jogar tenis e está gostando. E eu torcendo. Já o Pedro, meu filho de 5, este sim gosta de mexer na bicicleta, oculos e toca de natação, coloca meus tenis de corrida e vira e mexe diz: Papai, quando eu crescer eu vou ser ironman e ganhar provas igual a vc (coitado, com 5 anos ele ainda não percebeu a diferença entre ganhar uma prova - coisa da elite, e se arrastar até o final para completar a prova com a lingua de fora - coisa do pai (eu!) dele).
E, claro, dou o maior apoio e incentivo. Mas realmente temos que tomar cuidado, sem querer podemos forçar uma barra, mesmo bem intencionados, que pode lá na frente gerar frustrações.
Essa porte que vc se referiu, Max, só tem maçaneta do lado de dentro, não adianta forçar pelo lado de fora.
Valeu a reflexão!
abs,
Guilherme
Mais uma vez, sinto-me representado no seu texto. Como filho e como pai!
ResponderExcluirMuito legal!
Abs
Melhor obrigá-los ao esporte a ficar em casa o tempo todo na frente do PS3 ou assistindo os BBBs da vida...
ResponderExcluirAbs.,
Ronald
Ronald
Excluiro seu ponto é excelente. No meu caso, nós morávamos em uma chácara e as crianças tinham muitas opções saudáveis para brincar. Ninguém teve computador antes da adolescência, e TV era pra dias de chuva.
Talvez se eu fosse morador de apartamento o meu discurso tivesse sido diferente.
ab.
Eu fui "obrigado" a nadar e lutar judô quando criança, e depois passava o resto nas escolinhas de futsal e futebol.
ResponderExcluirAcho que foi válido! Quando tiver meus filhos irei "obrigá-los" à prática do esporte!
A combinação TV + vídeo game não dá...
Morando numa chácara ficaria mais fácil com certeza evitar os males "Globais" hehehe!
Abs.,
Ronald
Tenho um sobrinho de 10 anos que adora nadar... nunca o incentivei de forma competitiva. Apenas, sempre, garanti para que ele continuasse nas aulas de natação... viabilizando professores, horários etc.
ResponderExcluirMoramos no mesmo prédio.. e as aulas dele tem acontecido na mesma piscina em que treino. Tenho feito de tudo para coincidir os meus horários com o dele, pois é nítida a sua satisfação em nadar comigo. Ontem mesmo, perguntei que horas seria a aula dele... e se, "poderia", cair na água junto... ele me avisou que seria as 18:00... 2horas depois ele me liga, desesperado, dizendo que a aula seria somente as 18:30... ao chegar na piscina, na hora marcada, nem pensei nos 2800metros que iria nadar, com principal de 15x100m... só pensava no sorriso dele!
Se dali vai sair um grande campeão... eu tbm me controlo para não colocar pressão... pois ele é muito forte... e sempre que cai na água para nadar 25metros com outros garotos(mais treinados do que ele) ele ganha... aí todo mundo comenta: "Nossa! ele tem talento!" ... eu penso! Apenas continue de divertindo... e se ficar sério... espero que seja noa hora certa.