quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Caminho Que Temos A Percorrer

As faixas vermelhas são ciclovias, e isso não é projeto mas sim a realidade.

Reproduzido abaixo integralmente está o email de Wagner Costa, brasileiro residente na Holanda. Façam um investimento de 10 minutos do seu dia, leiam e assistam ao vídeo. E Bruno, peça ao seu pai que encaminhe para o email daquela senhora, por favor.


Oi Max,
Bem, como disse no meu comentário, sou Brasileiro e vivo na Holanda há 12 anos. Sou do Rio Grande do Norte e ano passado tive a oportunidade de ficar por três meses em São Paulo à trabalho. E é claro, levei a bike para seguir treinando.
Com isso posso dizer que conheço um pouco do comportamento dos ciclistas e motoristas (e população em geral) em duas regiões, apesar de nunca ter estado na região Sul.  Faço ciclismo (speed e MTB) há 5 anos e venho acompanhando o seu blog a algum tempo. E namorando com a idéia de começar no triatlon, graças ao seu blog.

Ao ler a sua carta aberta à Monica Waldgovel (que ironicamente parece um sobrenome holandês ou alemão que siginifcaria passaro da floresta) eu lembrei desse video. Ele resume o que seria necessário para haver uma mudança profunda: pressão popular massiva e conjuntura geo-política. Infelizmente programas com o Saia Justas só atrapalham já que o clima de chacota desfaz em um comentário infeliz de 30 segundos um trabalho sério de várias pessoas que se dedicaram por anos ao tema. Como diria a escritora Ayn Raid, a chacota é o refúgio do ignorante ou do mal intencionado.

Para o pessoal que não entende inglês, eu traduzi o texto do video. Também coloquei lá no meu blog, que é o meu diário de treino para o L’Etape du Tour, que participo todos os anos (www.wasgs.blogspot.com)

Um abraço e obrigado pelos blog. Me mantem muito bem informado sobre o mundo do ciclismo no Brasil!



Wagner


 O texto do vídeo é esse:

Como a Holanda ganhou suas ciclovias

A Holanda tem a maior quantidade de ciclovias do mundo. E também é o lugar mais seguro do mundo para o ciclista. E isso é basicamente devido a infraestrutura que pode ser vista através do país.

Mas como foi que os holandeses conseguiram criar essa rede de ciclovias de altíssima qualidade?

Algumas pessoas acreditam, incluindo uma boa quantidade de holandeses, que as ciclovias sempre estiveram alí. Mas isso é só verdade parcialmente. Haviam ciclovias, mas elas eram completamente diferentes das atuais. Estreitas, de má qualidade, perigosas ou até mesmo inexistentes em cruzamentos e não conectadas uma às outras.

E ciclovias não eram necessárias. O número de ciclistas é muito maior do que qualquer outro meio de transporte. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, tudo mudou. Os holandeses tiveram que reconstruir o país e eles tinham se tornado incrivelmente ricos. Entre 1948 e 1960 a média salarial havia subido 44% e em 1970 a média tinha subido incríveis 222%. As pessoas agoram podiam comprar produtos caros. A partir de 1957, especialmente, essa situação levou a um aumento do número de carros nas ruas.

As ruas das cidades mais antigas não foram construídas para os carros. E isso levou a demolição de prédios para abrir espaço para os carros. Inclusive a antiga infra-estrutura de ciclovias foi removida. Praças foram convertidas em estacionamento ou desaparecem para a construção largas ruas. A média de quilômetros viajados por dia subiu de 3.9kms em 1957 para 23.2 kms em 1975.

Mas este progresso veio com um preço terrível. As bicicletas foram marginalizadas e o número de ciclista caiu 6% ao ano. E 3.300 vidas foram perdidas em 1971 somente. Acima de 400 dessas vidas foram de criaanças abaixo dos 14 anos. O massacre das crianças levou a população às ruas em protesto.

Slogans como "Pare o assassinato de crianças" e "Por ruas seguras para as crianças" uniu ciclistas e pedestres. E os seus gritos foram ouvidos. Especialmente quando em 1973 a primeira crise do petróleo atingiu o país. O então primeiro ministro disse à população que a crise era uma que iria mudar a vida de todos. Que eles teriam que mudar a forma que viviam e teriam que ser mais independentes de energia fóssil. E que isso seria possível sem a queda na qualidade de vida.

Políticas para o aumento do uso da bicicleta combinavam perfeitamente com essa situação. Domingos sem carro para economizar petróleo lembrou às pessoas como o centro das cidades eram sem o transporte motorizado. Por volta dessa época os primeiros centros foram declarados "car free". Permanentemente. E os protestos continuaram. A motorização massiva matava as pessoas, as cidades e o meio ambiente. Protestos massivos através dos centros das cidades e protestos menores espalhados pelo país em favor do ciclismo criaram uma consciência que eventualmente mudou a forma de pensar e a política de transportes.

Em meados dos anos 70 as primeiras prefeituras começaram a experimentar com ciclovias e rotas completas e seguras. Aparte do carro. Financiada pelo governo nacional, as primeiras rotas foram criadas em Haia e Tilburg. Em retrospecto, essas foram as primeiras rotas da política moderna de transporte e ciclismo do país. E o número de ciclistas aumentou de forma espetacular. Em Haia, subiu de 30 a 60% e em Tilburg subiu 75%. Construa que os ciclistas viram provou uma verdade na Holanda.

Para resumir, o que fez a Holanda mudar: As cidades não conseguiam suportar o aumento no trafego e isso levou a demolição de prédios antigos e agravou a opinião pública devido ao espaço perdido ao carro. Um número intolerável de mortes no trânsito que outra vez atingiu a opinião pública e levou a protestos generalizados. E uma crise do petróleo que levou a racionamento ou falta de gasolina e ao alto preço da energia.

A solução foi encontrada na vontade política ao nível local e nacional (pressionados pela população) com ambos políticos e planejadores trabalhando em conjunto para sair de uma política centralizada no carro e buscando soluções alternativas de transporte como o ciclismo. O ciclismo é hoje em dia parte integral da política de transporte. E que sucesso os ciclistas conseguiram! A morte de crianças caiu dos 400 para os somente 14 em 2010. E as ruas ganharam suas ciclovias. Esta ponte não manteve sua linha para ciclistas. Ela ganhou uma ciclovia. Esta ciclovia pintada no chão virou uma ciclovia permanente. E os carros foram expulsos permanentemente daqui. Hoje este é o famoso local onde fica o sinal I AMsterdam. Mesmo local onde vários protestos foram realizados. E hoje os protestantes estariam bem mais confortáveis.

Os problemas da Holanda não eram únicos. E as soluções encontradas também não devem ser.

13 comentários:

  1. Show demais!!

    Eu li em algum lugar, não sei onde, mas estou procurando.... que existe uma nova cidade fundade no estado de Goias que foi planejada tipo Brasília.

    Quarteirões do mesmo tamanho, praças, árvores, prédios de no max 2 andares, e claro ciclovia em toda a extenção da cidade.

    Não consigo achar onde vi isso.

    Até to desconfiado que sonhei.
    Que m... !!

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  2. HAHAHA CIRO!

    Enfim, o brasileiro sabe o número de mortes que o carro provoca em ambiente urbano (isso pra nem falar das centenas de pessoas que irão morrer nesse carnaval nas estradas), sabe do prejuízo ambiental, e sabe o preço da gasolina (que em alguns lugares chega a 3 pila!!! o litro) mas poucos são os que fazem algo pra mudar a realidade!!! Pra mim tudo isso é culpa da indústria automobilística, com seus feirões "imperdíveis" todo fim de semana!! (sendo que se você perder esse, no próximo sabado tem outro!) pra mim isso é a mesma história da TekPix, hahaha, ligue nos próximos 5 min ou a parcela sobe 50 Dilmas!!!

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  3. Enquanto isso em um País chamado Brasil o governo para(reolver) a crise diminui o imposto dos carros e posteriormente aumenta o imposto para bicicletas importadas.
    Temos jornalistas ridicularizando os ciclistas, que são assassinados por motoristas, acho que deve ser a soluçao do governo para diminuir o aumento da populaçao ou coibir os ciclistas que não consomen o combustivel da petrobras diminuindo a arrecadação de impostos.

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  4. Max,

    Acho que a genet podia aproveitar esse projeto das serras e traçar um perfil da "bicicletabilidade" pelos estados em que passarmos.

    Por exemplo, eu sei por experiência que na região sul/sudeste São Paulo é de longe o lugar onde a bicicleta é mais marginalizada como meio de transporte / lazer / esporte - Espero que você não presencie nenhum dos absurdos na sua estadia aqui, mas considerando os locais que a gente vai pedalar eu duvido muito.

    Mesmo com um ou outro "porém" eu gostei muito do que vi no Sul (tchê)

    Obrigado ao Wagner por compartilhar esse texto e esse vídeo!

    Abs

    LODD

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    1. Excelente idéia. Sugestões para um critério de avaliação são bem vindas.

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  5. Max, infelizmente isso é utopia para nosso país. O antigo presidente (e atual presidente por trás desta senhora eleita) foi colocado na vida pública pelas montadoras do ABC e deve inúmeros favores para esta e NUNCA, enquanto persistir este governos termos nenhuma ação governamental que fira os interesses das montadoras.
    À nós cabe continuar lutando, erguendo nossa voz através de nossos blogs, facebooks, cartas aos jornais (já enviei várias) mobilizações, pois apesar de continuar achando que não conseguiremos muito, o pouco que vier será ótimo.
    Aqui em SP já conseguimos uma ciclovia na Marginal Pinheiros, que se não serve muito como via de trasnporte, já pode ser usada para os treinos com mais segurança.

    Abs!

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    1. Nunca tinha parado pra pensar nisso.

      Faz todo o sentido.

      Rabo preso com a França eu sei que existe... e muito.

      Mas tinha esquecido que o molusco e o PT tem rabo preso com as montadoras.

      Eu conheço um cara, um dos caras que comecou a organizar sindicatos no ABC em meados de 1970.
      Ele tem umas histórias bizarras do Lula como sindicalista.

      Coisas do tipo assim.

      Chamam o o sindicato por que precisam cortar custos.
      Avisam que vao mandar 2 mil pessoas embora.
      Aí o Lula entra dizendo para anunciarem que vão mandar 5 mil pessoas, e que eles irão fazer uma passeata na frente da emrpesa por 2 dias, muto barulho, e no final a montadora "só" manda 2 mil funcionários embora.

      Ou seja.... os mesmos dois mil que já iriam ser mandados.

      E o molusco fica como o salvador da pátria.

      Imagina.... se isso osorreu em 1975... o que aconteceu no governo dele?

      Minha nossa!!
      Dá medo!!!

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  6. Vai ser lento, muito lento.

    Nunca foi permitido que o brasileiro tivesse o nível de esclarecimento social que um holandês tem. A solução é educação, sempre.

    Ciro, não se você tem reparado, mas Santos, em breve, será a cidade grande mais bem servida por ciclovias. A malha não para de crescer e não é para lazer, é para transporte. Hoje, não se fala em obra de vias sem ciclovia em Santos. Acho que é um bom exemplo, afinal, como no vídeo, só está acontecendo isso devido a muita pressão e infelizmente muitas mortes.

    As ciclovias estão aparecendo, e talvez leve mais de 50 anos para chegarmos na Holanda dos anos 90. Não podemos parar de cobrar e, como já dito, temos que ter conciência em votar.

    Mas também não adianta usar a desculpa de que por que o governo é ruim tudo que se dane. É a cada dia, cada um de nós fazendo nossa parte para dar o que temos de melhor para a cidade, com educação e respeito. Por que é isso que queremos.

    Abrax.

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  7. Sorocaba/sP tem crescido bastante em ciclovias para transporte, meta de 100km de ciclovias! mas anos de distância de uma Amsterdam. O povo brasileiro ainda tem no carro seu símbolo de status social. Quando o rapaz entra na faculdade encosta a bike que usava no colégio e começa a usar o carro pra nunca mais parar.

    Abs.,
    Ronald

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  8. Tenho acompanhado as discussões sobre o tema e parabenizo pela seriedade e comprometimento de todos. Somos nós que precisamos dar o exemplo e não somente por sermos os maiores beneficiários, mas sim por sermos formadores de opinião.

    Quando vejo o vídeo sobre a Holanda, é claro que o mérito da situação atual é da geração anterior, que se revoltou e brigou pelo tema. O problema é cultural! Nós, brasileiros, precisamos dizer um basta em diversas situações que já extrapolaram todos os limites, seja no caso de motoristas bêbados, dos impostos que pagamos, da falta de respeito generalizada. E, por favor reflitam, nós somos os maiores culpados!!!

    Eu já tive a oportunidade de viver no Canadá e pude registrar pessoas que iam para o trabalho de Specialized S-Works e largavam (isso mesmo, largavam) na recepção, no bicicletário, sem qualquer tipo de tranca ou segurança. Nessa mesma cidade (não estou me referindo a uma cidade do interior do país, mas sim da capital canadense), no aeroporto, sua mala é entregue no saguão aberto do aeroporto, onde qualquer pessoa tem acesso.

    Precisamos, cada um de nós, colar um adesivo no seu carro mostrando respeito ao ciclista (aquele amarelo, que mostra a distância permitida de 1,5m). Precisamos dar continuidade as discussões trazidas pelo Max, como sempre brilhante. Precisamos (e não fiquem chateados com o que vou dizer) respeitar cada vez mais os ciclistas que cruzamos quando estamos dirigindo. Precisamos fazer cartilhas com regras básicas de como se comportar na estrada e distribuir no parque. Também como exemplo, na semana passada uma pessoa passeando de bicicleta no acostamento da BR-277 (perto do Parque Barigui), na contra-mão, sem capacete, caiu no acostamento, coincidentemente, a uns 100 metros de mim. Eu parei, ofereci ajuda, estava tudo bem e aproveitei para, seriamente, explicar sobre pedalar na mão, usar capacete, pneu calibrado, etc. A pessoa ficou ofendida e saiu me chingando. E o que eu fiz de errado? Vou fazer de novo, quantas vezes for necessário.

    Por isso que eu insisto. O trabalho é lento, a demanda é muito grande... mas nós somos os resposáveis pela mudança, cada um, com pequenas atitudes. Vamos lá...

    Novamente, parabéns e contem comigo.

    Max, Parabéns.

    Abraço.

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  9. Excelente Tony. A solução global sempre começa com ação local.

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  10. Parabéns a todos pelo belo exemplo de reflexão coletiva.

    Aproveito para fomentar uma ação, exatamente, em virtude da reflexão: como podemos ajudar ?

    Faço parte da ACICLI, Associação Ciclística de Itapetininga, somos fruto deste mesmo raciocínio de fomento às práticas sustentáveis....(desportivas)....nós criamos uma entidade que "promove" em âmbito local a modalidade, no entanto, aqui em nosso Município, no interior de São Paulo, não temos ciclovias demarcadas, temos alguns trechos nas marginais da cidade que são separados com cercas, mas são, predominantemente, destinados aos pedestres.

    Portanto, visando uma solução local para a problemática global, enviarei este link do blog, para o Vereador Adilson Nicoletti, ele já competiu no ciclismo faz alguns anos....(aproveito para cutucar o retorno aos treinos, mesmo reconhecendo que precisamos de tempo para treinos)....Bom, de toda forma, enviarei a ele com o propósito de acelerar a elaboração e aprovação de Lei destinada à construção da malha cicloviária de Itapetininga, bem como para fomentar a aplicação do Plano Cicliviário do Estado de São Paulo.

    A propósito, segue o link, para quem não conhece, do Plano Cicloviário do Estado de São Paulo....é uma bela ferramenta ainda pouco difundida.

    www.ta.org.br/site2/Banco/4leis/LEI%2010095_98%20ESP.rtf


    Sauda - ações desportivas !

    ACICLI.

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  11. É, a cada dia que passo tenho mais a certeza de que nasci no país e continente errado. Basta eu ver um vídeo deste ou pensar no molusco, no PeTeco, ou viajar 450 kms para buscar um passaporte como ontem para ter mais certeza.
    Quando saio do país então é como se levasse um murro na cara. Com certeza moramos em um país de macacos, como acham por ai...
    abs
    Ivo de Lima Dias

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